A preocupante massificação turística, em Sintra

 

 

 

O turismo em Sintra, que pela sua riqueza paisagística e edificada lhe valeu a justa classificação de Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural, não pode ser tratado tendo em vista apenas o aumento do número de visitantes e os consequentes lucros financeiros. Ou seja, não se pode falar, e reflectir, sobre o turismo em Sintra, numa perspectiva puramente economicista, repetindo os erros que foram cometidos noutras regiões do país nos anos 80, onde em nome do paraíso se permitiu a construção de infernos mimetizados. Tanto seria um erro não aproveitar as características únicas e diferenciadoras do concelho, especialmente da sua zona histórica, como é um erro continuar a permitir um turismo massificador, um turismo predador que, tal 11ª praga do Egipto, está a tornar-se numa calamidade.

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(Foto Fernando Castelo)

 

Sem a pretensão de nesta crónica, abordar as várias vertentes do problema, elegeria apenas três aspectos que me parecem importantes, se não mesmo basilares. Refiro-me às acessibilidades, à mobilidade e ao despovoamento da zona histórica e Estefânea*. Em relação à primeira são conhecidos os estrangulamentos provocados por uma permissividade, cúmplice, do acesso automóvel ao Centro, às cercanias dos monumentos, até no cruzamento pela Serra. A concretização dos mil vezes prometidos parques de estacionamento, nas entradas de Sintra, com a função de filtrar a afluência motorizada, passam de Executivo para Executivo. Os parquímetros sempre vão facturando, e a instalação dos parques implicava, por exemplo, uma articulada e eficaz rede de minibuses não poluentes, nem ruidosos que, como serviço público, provavelmente não davam lucro financeiro, mas com o qual lucravam, em qualidade, visitantes e moradores. Como consequência imediata desta promessa nunca cumprida – que faz parte das clássicas em tempos eleitorais -, a circulação de automóveis e transportes “turísticos” no casco histórico, é histérica, agredindo e poluindo, no sentido literal, pessoas e paisagem e dando um toque muito original à “marca”, Sintra Capital do Romantismo…

 

Por fim, se não é o mais dramático é muito, muito preocupante o galopante despovoamento do Centro Histórico e da Estefânea. Ou porque se sentem agredidos no seu direito à privacidade, ao sossego e vida normal e bem-estar (chegar a casa, ir às compras, estacionar, etc), os moradores vão saindo, resistindo os mais velhos por ausência de opções ou por recusa ao desenraizamento. Então, onde moravam famílias durante vidas, nascem “unidades hoteleiras” sob toda uma série de heterónimos, destinadas ao aluguer sazonal. A alegada falta de camas, tudo justifica e o fenómeno alastra a uma velocidade vertiginosa, suponho que devidamente legalizado e com receitas, municipais e particulares, asseguradas. Nesta escalada irracional, louvam-se os milhões de visitantes, os rankings manhosos e esquecessem-se as pessoas e as suas raízes. Qualquer dia, os poucos moradores fazem de figurantes para a fotografia ou, na falta deles, contratam-se substitutos através daquelas agências que organizam as assistências, em alguns programas televisivos.

 

Não vou cair no ridículo de dizer que a culpa é deste Executivo, porque estava a fazer a mesma, triste, figura dos que remetem todas as responsabilidades pelo que não foi feito, para os 12 anos anteriores. A questão é política, ou da ausência de uma política articulada – como está a ser aplicada em várias cidades europeias -, intransigente às pressões tentaculares dos agentes turísticos, particulares e públicos, que saiba retirar partido dos recursos que a natureza e o passado nos legaram, sem destruir esses mesmos recursos nem expulsar as pessoas do seu meio, gerando assim num “não lugar” – no sentido em que são lugares de passagem e desprovidos de vida  enraizada, quando podiam ser de convivência entre paisagem, moradores e visitantes.

 

João de Mello Alvim

 

 

 

* Como João de Oliveira Cachado, Fernando Castelo, Fernando Morais Gomes e muitos outros, vêm sistematicamente alertando há anos.

 

 

 

 

40 anos depois

40 anos depois, no balanço dos defeitos e virtudes, erros e progressos, pode-se dizer que o Poder Autárquico foi uma das importantes victórias do 25 de Abril plasmada na Constituição*. Mas também se pode constatar que muito há a fazer no aprofundamento das actuais competências, na exigência de autarcas habilitados e com visão de futuro, ligados à terra e às suas gentes, e ainda no derrubar das barreiras que impedem o exercício pleno da cidadania, por parte dos eleitores.

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As actuais competências das autarquias, só serão substanciais se estiverem imbuídas de uma visão dinâmica, estruturada, entre outros, nos seguintes eixos: no ordenamento do território e da humanização dos espaços habitados, designadamente urbanos;  na implementação de uma rede de cuidados de saúde, no sentido horizontal e vertical (desde as Unidades de Saúde Familiar até a um Hospital) que sirva todos os habitantes e não só alguns; na defesa da memória colectiva na herança da paisagens, natural e edificada, requalificando em função das pessoas, e dos seus laços com os sítios;   na resolução articulada, não no fogacho de um remendo, do estrangulamento das acessibilidades e na rede de transportes públicos que sirva todo o território; na preservação, com vida enraizada, não apenas a sazonal, dos núcleos históricos evitando que a euforia estatística do turismo descaracterize e formate o que é singular ; no definir, estruturadamente, de orientações contra a exclusão social e a marginalidade; no investimento na educação e na cultura e nos agentes que a promovem, não caindo na tentação da municipalização cultural, que absorve mais recursos, financeiros e humanos, e não promove o empenho da comunidade e a continuidade da oferta.

No entanto, estes objectivos para serem concretizados, exigem autarcas competentes e não autarcas em que a competência é directamente proporcional à influência que têm nos directórios partidários. O cartão do partido, por si, não unge de sabedoria o seu portador, muitas vezes, pelo contrário, é uma forma de disfarçar a incompetência e premiar os medíocres, os servis para com os poderes, discricionários e egoístas dos “aparelhos”. A gestão paroquial e /ou de cacique(s) ou de “personalidades em comissão de serviço” que nada têm a ver – nem querem ter – com os concelhos para onde foram indicados, tem de ser combatida pela exigência de eleitos, competentes, conhecedores da terra e das suas gentes, que deem garantias de implantar políticas activas, ao serviço da população durante todo o mandato, e não só no último ano do mesmo em manobras descaradamente eleitoralistas.

Mas a substanciação deste aprofundamento do Poder Local, só será possível se os eleitores não comprarem gato por lebre e escrutinarem profundamente programas e candidatos**. A qualidade do governo autárquico depende cada vez mais do envolvimento dos cidadãos, tanto no acto de votar como depois, exigindo uma democracia participativa que preserve os seus direitos de cidadania – ao contrário dos velhos hábitos que alguns eleitos tudo fazem para impedir, ficando assim com o caminho aberto para seguirem caminhos diferentes dos prometidos durante a campanha eleitoral e que nada têm a ver com o bem-estar da população. As populações têm de se rever na progressiva evolução do modelo de governação, contestar e barre se necessário for, desvios ao resultado do sufrágio, garantindo a sua constante e necessária participação democrática.

 

João de Mello Alvim

 

*Nunca é por demais lembrar, que Basílio Horta foi um dos poucos deputados que votou contra a Constituição que passou a consagrar o Poder Local democrático. Não sei algum dos indefectíveis do actual Presidente, acha que o tempo lhe veio dar razão ao então deputado do CDS…

 

**Cada vez mais considero mais um exercício de transparência e um contributo para a eleição dos melhores, a possibilidade de os eleitores puderem pronunciar-se, antes do acto eleitoral, sobre os candidatos que os partidos pensam apresentar, de forma a que estes, com humildade democrática, possam recolher mais dados para confirmar ou questionar, se for o caso, as listas.