“O Som e Fúria”, pelo Teatromosca

SOM

Quando vou ver uma obra que nasceu a partir de outra, não me interessa se a última segue a primeira. Exemplo: se vou ver um espectáculo de teatro construído a partir de um livro, separo peça do livro: são objectos distintos, construídos com códigos autónomos e com características diferenciadas. Fujo da mimese, procuro, no que estou a ver, a comunicação que me toca, que me sensibiliza, me faz, ou não, pensar e agir pensadamente.

Na minha opinião, a montagem de um objecto artístico implica a injunção entre concepção e a construção, do que será público. No teatro, por exemplo, pode ser perceptível uma concepção irradiante, mas o que o se vê, a construção, ser disfuncional com a concepção.

Como na literatura, posso ter uma grande história, narrativa ou não, na cabeça mas, se não sei usar os instrumentos da escrita, não posso aspirar a dar a conhecer uma obra homogénea e potente. No teatro, se não tenho actores para corporizarem a minha concepção, devo procurar o equilíbrio entre a ideia inicial e a que aparecerá em palco, porque essa é que interpelante. E, já agora, também me devo questionar, se tenho a maturidade artística/técnica para o domínio dos meios que a minha concepção implica.

Mais do que nunca, e espero que sempre, sinto um fascínio muito grande por quem procura a ruptura, o não comodismo, o risco, logo que numa lógica de percurso em que o tempo é o burilador. Posso, depois de acabar de ler um livro, ver um filme ou um espectáculo, não vir de alma cheia, mas quero vir a pensar fora de qualquer espécie de carris condicionadores, e fazer votos para que os criadores voltem ao trabalho e a novas propostas.

Tudo isto a propósito de ontem ter visto “O Som e Fúria”, pelo Teatromosca (dirigido por Pedro Alves, Mário Trigo e Carlos Arroja), que, para vergonha nossa como sintrenses, continua sem ter uma sala própria para trabalhar e apresentar programação – como provou que tem capacidade, nos poucos meses que esteve no desaproveitado Auditório Municipal António Silva.