As distorções e as pressões do desespero

 

 

Sensivelmente há um ano, na concelhia do PS/Sintra, o cenário era de grande optismo. Os que tinham defendido um militante socialista para encabeçar a lista às autárquicas de 2013(na linha de João Soares ou Ana Gomes), em vez de Basílio Horta – homem da direita trauliteira e da “casta partidária” do bloco central de interesses -, já tinham engolido, e digerido, o sapo. Por outro lado, na análise que faziam da vida política, o Movimento Sintrenses com Marco Almeida estava a definhar e “o PSD, em Sintra, não existe” – ouvi isto da boca de um poderoso dirigente. Neste cenário de ficção, como o tempo veio a confirmar, pensavam os estrategas que chegava divulgar a existência de milhões nos cofres da autarquia*, e fazer rodar a cassete dos “12 anos sem obra”, e um próximo mandato estava ganho.

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Mesmo quem aponta os maiores defeitos e inércia às gestões de Fernando Seara, aquilata do exagero do slogan e até se lembrará que, nesses “12 anos sem obra”, o PS teve pelouros…. o actual Presidente da Assembleia Municipal, Domingos Quintas, não tutelou a fulcral pasta das Finanças e, como tal, não teve responsabilidades na gestão, assim como mais dois vereadores eleitos pelo PS? Ou Domingos Quintas, conhecido pela sua honestidade pessoal e política, aceitou ser “verbo de encher” numa das gestões Seara? Por outro lado, a ajudar ao fracasso da estratégia seguida, o senso-comum não entendia/entende para que servem tantos milhões, se ficam nos cofres dos bancos e não  são aplicados em benefício dos munícipes.

Com sondagens nas mãos que indiciavam o erro da análise e estratégia política, o desespero levou a mais uma guinada na política errática seguida desde 2013. Da manga saiu o que se pensava ser um trunfo: usar a propalada influência do actual Presidente dentro da sua área de filiação ideológica, nomeadamente junto de altas personalidades do PSD e do CDS, na tentativa de minar e impedir a aproximação destes dois partidos à eventual recandidatura de Marco Almeida. Mas o resultado foi exactamente o contrário. Destes,   o PSD declarou o apoio ao independente, segundo palavras suas na recente divulgação pública da candidatura (basta saber em que moldes, mas isso faz parte da saída do labirinto em que o candidato independente ainda se encontra…)**.

Perante este desaire negocial***, a orientação da linha estratégica e do discurso do PS/Sintra, tinha de mudar. Os “12 anos sem obra”, passam a “refrão” e o enfoque da narrativa centrar-se-á na futura catadupa de inaugurações e projectos (daí o orçamento mais folgado), assim como protocolos a assinar com entidades associativas e outras, (medida anunciada durante a campanha e congelada durante três anos). A nível político, as directivas indicam que se deve fazer passar, a todo o custo, a ideia de que Marco Almeida não é independente, mas o candidato do PSD; e ainda, numa clara distorção do âmbito das eleições, que são autárquicas não legislativas, querem fazer crer que uma victória do candidato independente apoiado pelo seu Movimento e outros organizações e partidos, entre eles o PSD, contribuirá para uma possível victória do PSD/Passos Coelho a nível nacional. A mesma distorção, acompanhada por ameaças de excomunhão feitas pelos zelotas, paira sobre os militantes mais renitentes e eleitores de esquerda sem filiação partidária que, por não se reverem na orientação do PS e muito menos na filiação ideológica do cabeça de lista, personagem assumidamente de direita, ou equacionam, ou já decidiram votar no candidato independente Marco Almeida.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

 

*A fazer lembrar a frase “(…) temos os cofres cheios” de Maria Luísa Albuquerque, ministra de Passos Coelho, enquanto a maioria do povo português sofria com medidas gravosas impostas pelos burocratas da UE para defender o sistema financeiro. Ler mais: http://www.dn.pt/economia/interior/pais-tem-cofres-cheios-para-satisfazer-compromissos-diz-ministra-das-financas-4462359.html

 

** Ler mais:   https://www.noticiasaominuto.com/politica/697632/independente-marco-almeida-recandidata-se-a-sintra-com-apoio-do-psd

 

***A postura de arrogância política, própria de quem se dá mal com a democracia participativa, e a falta de empatia do actual Presidente junto dos sintrenses, foi uma das razões ponderadas e que jogou contra. É notório que Basílio Horta não tem a menor afinidade com a terra que governa, nem consegue estabelecer ligações afectivas com as suas gentes, e esse factor que, por nervosismo ou calculismo, os seus apoiantes desvalorizam, pode ser determinante na hora do voto.

 

“O Som e Fúria”, pelo Teatromosca

SOM

Quando vou ver uma obra que nasceu a partir de outra, não me interessa se a última segue a primeira. Exemplo: se vou ver um espectáculo de teatro construído a partir de um livro, separo peça do livro: são objectos distintos, construídos com códigos autónomos e com características diferenciadas. Fujo da mimese, procuro, no que estou a ver, a comunicação que me toca, que me sensibiliza, me faz, ou não, pensar e agir pensadamente.

Na minha opinião, a montagem de um objecto artístico implica a injunção entre concepção e a construção, do que será público. No teatro, por exemplo, pode ser perceptível uma concepção irradiante, mas o que o se vê, a construção, ser disfuncional com a concepção.

Como na literatura, posso ter uma grande história, narrativa ou não, na cabeça mas, se não sei usar os instrumentos da escrita, não posso aspirar a dar a conhecer uma obra homogénea e potente. No teatro, se não tenho actores para corporizarem a minha concepção, devo procurar o equilíbrio entre a ideia inicial e a que aparecerá em palco, porque essa é que interpelante. E, já agora, também me devo questionar, se tenho a maturidade artística/técnica para o domínio dos meios que a minha concepção implica.

Mais do que nunca, e espero que sempre, sinto um fascínio muito grande por quem procura a ruptura, o não comodismo, o risco, logo que numa lógica de percurso em que o tempo é o burilador. Posso, depois de acabar de ler um livro, ver um filme ou um espectáculo, não vir de alma cheia, mas quero vir a pensar fora de qualquer espécie de carris condicionadores, e fazer votos para que os criadores voltem ao trabalho e a novas propostas.

Tudo isto a propósito de ontem ter visto “O Som e Fúria”, pelo Teatromosca (dirigido por Pedro Alves, Mário Trigo e Carlos Arroja), que, para vergonha nossa como sintrenses, continua sem ter uma sala própria para trabalhar e apresentar programação – como provou que tem capacidade, nos poucos meses que esteve no desaproveitado Auditório Municipal António Silva.