Do, é ou não é hospital, ao hospital privado do Grupo Mello, em Sintra

Pólo hospitalar, agora Hospital de Proximidade, finalmente parece que Sintra vai ter uma unidade hospitalar dentro das várias categorias possíveis. E se ainda não é o equipamento que o concelho há anos precisa, não se pode deixar de saudar a assinatura do protocolo. Saudar e reflectir, tanto sobre a data do anúncio, como do destino dos milhões municipais e ainda sobre a coincidência de, para a semana, ser anunciado o projeto de construção de uma unidade Hospital privada no concelho, um investimento do Grupo Mello.

Não será preciso um exercício de grande perspicácia política para associar, entre outras razões já aqui expostas, o atraso do anúncio da recandidatura do actual presidente, à garantia por parte do governo da assinatura do protocolo em véspera das próximas eleições autárquicas. Amarrado ao princípio de recandidatar todos os presidentes em exercício, e pressionado pelo PS local, mesmo os mais renitentes membros da direcção nacional deste partido não tinham outra alternativa. E Basílio Horta(BH) conhecia este dilema muito bem. Por isso esticou a corda junto do governo PS, para tentar garantir aquela que poderá ser a sua primeira vitória eleitoral “sem espinhas” – toda a gente sabe que BH não ganhou as últimas autárquicas, já que as mesmas foram uma derrota do PSD devido à cisão concelhia ocorrida a meses das eleições e que ainda não cicatrizou completamente.

Não entrando na manobra de diversão “do, é ou não é Hospital”(1), sinalizo duas questões que penso necessitarem de maior reflexão. A primeira, que os partidos de esquerda em Sintra (PCP e BE) têm apontado, é o facto de o município ir suportar uma despesa que compete ao Estado e que o próprio Basílio Horta, há meses atrás, exigia que assim fosse. Ora, sabendo que o problema do Hospital para Sintra, e consequente sofrimento das populações, se arrasta há mandatos e mandatos de alternância entre o PS e o PSD, e conhecendo a proverbial arrogância política do actual presidente, só se entende esta marcha-atrás em escassos meses, como reflexo dos ajustes do “deve e haver” político que se elencam nos gabinetes à espera de “certificados de garantia”, seja para contribuir para a victória, seja para “conforto”, em caso de derrota. Por outro lado, é no mínimo intrigante a coincidência do Grupo Mello, que tão boas relações tem com determinado sector de “políticos da área dos negócios”, lançar, praticamente em simultâneo, o anúncio da construção de um hospital privado também em Sintra. Será que este interesse há muito conhecido por parte deste grupo económico pela doença, vem, por coincidência, colmatar as insuficiências do protocolizado hospital de proximidade? E com tal simultaneidade, não fica a ideia que o PS/Basílio Horta está, em várias frentes, a tratar da saúde aos munícipes? (2)

Poder-se-á dizer que não há fome que não traga fartura. Neste caso, porém, prefiro uma pequena alteração ao ditado: não há doença que não traga factura. A ver vamos.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

(1)- A propósito, aconselho a leitura, despreconceituosa, do texto de André Beja, Enfermeiro, Investigador de Políticas de Saúde, Candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Sintra.

http://www.esquerda.net/opiniao/hospital-de-proximidade-de-sintra-mais-duvidas-que-certezas/49438

 

(2) – A propósito, e dentro da defesa, não assumida, da estratégia do PS/Sintra, é elucidativo este artigo do Sintranotícias,

http://sintranoticias.pt/2017/07/01/grupo-mello-aposta-sintra-vai-construir-hospital-privado/

 

 

Insinuações-muitas, Notícias-zero, em Sintra

Recuso o “jornalismo” manipulador dos factos, como o sensacionalista, como recuso o “jornalismo” de insinuações que visa o ataque pessoal. Para mim não é notícia o património do actual presidente da Câmara de Sintra. É uma insinuação que, ao contrário do que alguns pensam, torna o visado em vítima. Como não é notícia um pretenso projeto nas redes sociais contra a actual gestão na autarquia sintrense. Se há conhecimento de factos e se não querem brincar ao jornalismo, ou pior, enlamear o jornalismo, que a investigação preceda a publicação e que a notícia esteja limpa de opinião.

foto site Vida em Equilíbrio

Na nova página do facebook  Portugal Alerta, da responsabilidade de Carlos Narciso, apoiante declarado da candidatura do independente Marco Almeida, foi postado um texto sobre o património do actual presidente da Câmara, assim como dos juros que aufere anualmente com as suas contas bancárias. O texto, marcadamente opinativo, contém uma descrição sobre os cargos que o fundador do CDS ocupou, mesmo antes do 25 de Abril, das constantes derrotas políticas eleitorais, mas essencialmente centra-se no património de Basílio Horta(BH), com a argumentação de que não seriam esses cargos, pagos sempre pelo erário público, que lhe permitiriam amealhar tais valores. Isto para mim não é notícia, são insinuações. A notícia devia partir de factos investigados e provados.

O Sintra Notícias, que insiste em camuflar o seu alinhamento editorial com o PS sintrense como se os leitores fossem acéfalos, entra pela tentativa do descrédito ao referir o jornalista Carlos Narciso como ex-jornalista. Depois, ocupa grande parte do artigo, onde mais uma vez se mistura informação com opinião, com a indignação de BH perante a “notícia” do Portugal Alerta e lança a insinuação de uma cabala online: o Portugal Alerta faz parte de um projecto nas redes sociais, contra a actual gestão do PS/Basílio Horta.

Com “jornalismo” como este, só resta aos eleitores sintrenses que desejem estar informados, a diversificação das fontes e o cruzar dessa mesma diversificação para encontrar “o caminho das pedras”. Pelo lado das candidaturas, se estas pensam que se se colarem a estes exemplos de mau-jornalismo e/ou partilharem estas “notícias” saem favorecidas, estão redondamente enganadas. Só é convencido quem já está convencido. A grande maioria dos indecisos, só ilusoriamente será seduzida, sendo que, o voltar as costas às candidaturas que se colem a estas manipulações disfarçadas de jornalismo, pode ser uma das opções, ou então um contributo para o reforço da abstenção.

 

João de Mello Alvim

foto site Vida em Equilíbrio

A orfandade do centro-esquerda nas próximas autárquicas, em Sintra

No alinhamento das actuais candidaturas às autárquicas de Sintra, mesmo tendo em conta que são eleições locais, o factor decisório centrar-se-á na disputa dos habituais eleitores do centro-esquerda. Se à esquerda, à direita e ao centro-direita, há opções claras, uma grande franja de cidadãos, por convicções ideológicas, não se revê no panorama, podendo o “partido da abstenção”, para além de ser grande vencedor, juntamente com o chamado voto útil, influenciar o resultado final.

Fazer uma extrapolação dos resultados das últimas eleições legislativas no concelho(1), para as próximas autárquicas, é um erro político básico, agravado em Sintra pela existência de um Movimento, o dos Sintrenses com Marco Almeida(MSCM), onde o sentido de voto dos seus apoiantes, não foi canalizado para um só partido ou área ideológica, uns por convicção, outros ainda sob os efeitos do cisma no PSD/Sintra. O mesmo acontece com a miragem de que o efeito “geringonça” reverterá a favor do PS, e que pretende branquear que o actual Executivo é suportado por uma troika espúria em que entra o PSD-indefectível de Passos Coelho. Concorre ainda para limpar a miragem, o actual núcleo duro que dirige a Concelhia do PS que é conhecido por “arrebenta candidatos socialistas” (João Soares e Ana Gomes), e last but not the least, o percurso político do cabeça de lista, Basílio Horta, que foi essencialmente como militante da extrema-direita de onde herdou os tiques autoritários e a difícil convivência com as regras democráticas.

Esclarecidas estas questões, uma outra, e essencial, se coloca. Em que candidatura se reverão os eleitores do centro-esquerda? Suprimidas as hipóteses Bloco de Esquerda e CDU por se assumirem inequivocamente de esquerda, e a do PS por se apresentar travestida, a candidatura do independente Marco Almeida conseguirá atraí-los? Seria mais fácil dar crédito a esta hipótese se a referida candidatura conseguisse fazer um caminho mais transversal ideologicamente, e fosse para além do movimento do ex-militante do PS, Barbosa de Oliveira. Seria mais fácil a entrada na área do eleitorado do centro-esquerda, se, pelo menos um dos nomes chave da candidatura (cabeça para a Assembleia Municipal e Mandatário), fosse de gente de esquerda. Assim, um trabalho de formiga feito ao longo de quatro anos por parte dos aderentes do MSCM, onde há gente de várias ideologias, pode ser ofuscado por nomes de destaque na candidatura e conotados com a direita e o centro-direita. Além do mais, são dados de mão-beijada argumentos aos que dizem que a candidatura independente não o é tanto assim, pois teria sido negociada, e estará a ser condicionada por pactos com o PSD/CDS onde, do lado do MSCM, só Marco Almeida participa.

Pelo lado do PS/Basílio Horta, a situação não é a mais atraente para o habitual eleitor do centro-esquerda. Em vez da almejada mais-valia, o actual Presidente tem-se revelado um bico-de-obra, pelo falhanço nas negociações com a sua família política para condicionar o lançamento da candidatura de Marco Almeida, pela falta de empatia com os cidadãos, pelo desconhecimento da realidade concelhia, pelas entradas de leão e saídas de sendeiro, e pela mediocridade como decisor político. Por este resumo, em vez de alargar a base eleitoral ao centro e à esquerda, afunilou-a, por desgaste, em “pensamentos, palavras, obras e omissões”. Mesmo com a descarga de obras e projectos, que aqui mesmo previ e estão a inundar, e a entupir os órgãos de comunicação oficiais e oficiosos, dificilmente conseguirá inverter o caminho de desconfiança que provocou, mesmo no próprio núcleo duro da Concelhia onde a convivência conheceu melhores dias.

Concluindo, uma certeza, uma incerteza, e uma pergunta-reflexão que deixo aos leitores e poderá ser o mote provável para próximo artigo. A primeira está na actual orfandade do “centro-esquerda”, a segunda no desfecho das eleições autárquicas em Sintra, a terceira e última: se este quadro de orfandade não for alterado, para onde penderá o voto útil?

 

 

João de Mello Alvim

imagem ideiademarketing.com.br

 

 

O panorama desolador da comunicação social, em Sintra

 

 

Longe vai o tempo em que existia em Sintra comunicação social informativa e interveniente, em quantidade e variedade, embora nem sempre em qualidade com raras e notórias excepções. De há uns anos a esta parte a quantidade caiu vertiginosamente, a variedade afunilou e a qualidade deixa muito a desejar, mesmo com o aparecimento de novas tecnologias de difusão. A ligação às forças partidárias, é um factor que se mantem inalterado, salvo raros desvios a esta regra.

Que jornais, sites, rádios e Tv´s se podem ver/ler/ouvir em Sintra que reflictam a realidade social e política do concelho? Com o risco de cometer alguma injustiça, o panorama é desolador, os jornais mais parecem folhetos de anúncios de um qualquer supermercado, salpicados por notícias na maioria das vezes não editadas e sem obedecer a uma unidade no seu conjunto. Resiste o “Jornal de Sintra”, com dois ou três colaboradores que não se pode deixar de ler, mas, e com todo o respeito pessoal pela sua directora, sem um rumo, sem inovação. De assinalar, no entanto, a resistência às vicissitudes que toda a imprensa passa e a independência partidária. Com outras características editoriais por ser “um jornal metropolitano (…) com edições semanais ou quinzenais, distintas em vários concelhos”, está o Jornal da Região-Sintra(JR-S). Mais criterioso na selecção e tratamento das notícias, tentando que a opinião não contamine a informação, e trilhando um rumo que não será especulativo imaginar de constante tensão entre a administração e a redação, o JR-S é o melhor exemplo de jornalismo independente que se faz em Sintra, sendo que o director, Paulo Parracho, nunca escondeu a sua filiação partidária(PSD) e inclusive foi eleito pelo seu partido para um órgão autárquico. Por outro lado, a rádio que existe é essencialmente de entretenimento e amolecimento. Restam as publicações online e uma televisão local, suponho que a única, depois da paragem da “Alagamares TV”.

Destas é justo salientar o infatigável trabalho de recolha do site “Tudo sobre Sintra”, uma incontornável fonte de consulta onde a imparcialidade é evidente, a “Saloia TV” e o “Sintra Notícias”. Ora estes dois últimos exemplos são paradigmáticos da forma como se situam perante as forças partidárias. Se no primeiro, goste-se ou não do estilo – e eu não gosto -, é assumida a defesa de uma candidatura, a do independente Marco Almeida, o segundo, para além de ser uma espécie de cópia do site da Câmara, é um defensor encapotado da estratégia política do PS/Sintra e do seu candidato, violando o que está escrito no seu estatuto editorial: “(…) O SINTRA NOTÍCIAS rege-se por critérios de rigor e imparcialidade no tratamento da matéria informativa; O SINTRA NOTÍCIAS assume a sua independência institucional, ideológica, política e económica na selecção e tratamento dos conteúdos informativos que disponibiliza aos seus utilizadores”.

Chega a ser confrangedora a forma, parcial, como são tratados os conteúdos editoriais. Não seria mais profissional e menos ridículo aos olhos dos leitores, que não são só os alinhados com a actual direcção da Concelhia do PS, assumir publicamente a defesa da estratégia do PS/Sintra e a manipulação das informações relativas à candidatura de Marco Almeida a quem, invariavelmente chamam candidatura da coligação PSD/CDS, tentando branquear quase quatro anos de trabalho dos aderentes ao Movimento Sintrenses com Marco Almeida? Ou o SN parte do princípio de que os leitores são acéfalos e meia-dúzia de partilhas de uma notícia no facebook são sinal de sucesso informativo?

 

João de Mello Alvim

Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

Com o PS a inclinar para o cepo um cabeça de lista da direita dos negócios, e uma candidatura independente com apoios, essencialmente, de cento-direita, que escolha terá um eleitor de esquerda que não seja militante do PS*, do PCP nem do Bloco de Esquerda nas próximas eleições autárquicas, em Sintra?

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O cabeça de lista que o PS/Sintra (re)indicado para disputar a presidência da Câmara, pelo seu passado político e concepção muito própria do exercício do Poder Autárquico – contra o qual votou desfavoravelmente, na Constituinte -, macula a candidatura e afasta muitos socialistas, militantes ou simpatizantes. O seu desempenho destes quase quatro anos, demonstra um entendimento refratário à pluralidade de opiniões. Afasta, sistematicamente, os eleitos que não fazem parte do vigente acordo de governação de tomadas de decisões políticas, quando, pela importância das mesmas e reflexo na vida dos sintrenses, a sua inclusão é do mais elementar bom-senso. Do mesmo modo, tem demonstrado uma evidente falta de capacidade para executar uma governação planificada, assim como uma visão economicista da política, que se reflecte mais nos milhões das contas bancárias, do que no bem-estar da população*.

Por outro lado, já depois de lançada, a recandidatura do independente Marco Almeida(MA) teve o apoio da sua família ideológica e ainda de socialistas organizados num pequeno movimento, assim como de personalidades conhecidas pelas suas posições de esquerda, o que não chega para ser um movimento transversal. Alguns erros cometidos, como por exemplo, a escolha, precipitada, de Carmona Rodrigues para coordenador do programa, ou a “troca” de António Capucho por Ribeiro e Castro, contribuíram para criar desconfianças entre nos eleitores de esquerda indecisos. No entanto, a argúcia política que MA tem demonstrado, pode contribuir para clarificar que se trata de eleições autárquicas e não nacionais, e tornar inequívoca a demarcação com o “pafismo”. A abrangência e sensibilidade social do programa, a ser apresentado, e as expostas divisões dentro da esquerda, poderão contribuir para o alargamento da referida transversalidade.

No entanto, com estes dois candidatos, muitos eleitores de esquerda, mesmo tendo em atenção que se trata de eleições locais onde se destaca o perfil político do cabeça de lista, o seu conhecimento e relação efectiva e afectiva com o território, continuam “órfãos”, apesar da recentemente anunciada candidatura da CDU (Pedro Ventura) e do anúncio, para breve, do cabeça de lista do BE (uma surpresa?). Se o PCP aposta no mesmo candidato de 2013, sabendo à partida que a sua eleição como vereador está garantida, já da parte do BE, mesmo que seja anunciado um nome com créditos indiscutíveis em termos nacionais, o há muito diagnosticado frágil enraizamento deste partido no trabalho de base no concelhio, dificilmente contribuirá para alterar substancialmente os resultados. E, substancialmente, seria a eleição de um vereador, assim como o aumento da representação na Assembleia Municipal e nas Freguesias.

A questão que mais agudamente se coloca aos eleitores de esquerda não militantes (ou militantes com autonomia de pensamento e acção), do PS ao BE, é a de tentar perceber porque razão, neste quadro em que o PS oficial se auto-exclui com a indicação de um cabeça de lista da direita dos negócios, não é possível a CDU e o BE construírem, com base nos seus programas que em pouco se diferenciarão, uma alternativa de esquerda credível e exequível. Isto num concelho que, desde que há eleições, sempre foi governado ora pelo PSD, ora pelo PS, sendo que o CDS e a CDU raramente estiveram de fora… Ou será que este último facto é o elemento bloqueador de um acordo à esquerda? E se o é, não se está a tempo, e num tempo político, oportuno para o debater e ultrapassar? Não é importante que a esquerda esteja representada, autonomamente e com força política, na mesa dos vereadores eleitos? Ou será que desta incapacidade da esquerda se unir, vão sair os votos que determinarão a victória de um dos outros dois candidatos, Basílio Horta ou Marco Almeida? Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

João de Mello Alvim

 

 

*Ou mesmo sendo militante não se reveja nesta PS/Basílio Horta

** Isto já para não falar no ridículo de, nas raras presidências abertas, excluir os vereadores eleitos pelo Movimento Sintrenses com Marco Almeida, ou seja, a oposição.  Tem sido um exercício de mandato de um Presidente que nada tem a ver com os princípios fundadores do socialismo e, mais grave, não governou para todos os sintrenses – as Uniões de Freguesias cujos Executivos não são do PS/Basílio Horta, estarão em boas condições de confirmar ou desmentir o que escrevo.

Quao vadis esquerda em Sintra (edição em PDF)

PSD/Sintra uma estratégia a pensar em 2021

Os efeitos para o PSD/Sintra da luta fratricida que levou à cisão de 2012, foram devastadores para a estrutura e para a influência do partido, mas o anúncio da sua morte foi manifestamente exagerado.  Depois da derrocada, da natural desorientação e debandada – o cimento do Poder era pouco para segurar militantes que só o são quando há benesses –, a estratégia adoptada de arejar a Comissão Política, abrindo-a a elementos que não estiveram no epicentro da cisão, assim como a novos quadros vindos da JSD, foram alterando, paulatinamente, o rumo e a prática política. Por outro lado, a cumplicidade e camaradagem, gerada por anos e militância no mesmo partido, cedo permitiu, por exemplo nas freguesias, o trabalho conjunto, mas não publicitado, com o Movimento Sintrenses com Marco Almeida(MSCMA). Esta conjugação não foi rejeitada pela nova Direcção, que, pelo contrário, prudentemente, a incentivou, ao mesmo tempo que a nível distrital, com reflexos nos organismos nacionais, ia apresentando argumentos para esbater o clima de crispação PSD/MSCMA.

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De realçar no traçar destas novas directrizes que tinham/têm como objectivo central a reconstrução do PSD/Sintra e o regresso à influência no concelho, o papel da actual Presidente da Comissão Política, Paula Neves, que, com o seu perfil discreto e a alegada inexperiência política para o cargo– na altura da sua eleição não faltou quem lhe pressagiasse um papel meramente decorativo…- , tem contribuído para lançar as bases do renascimento do PSD, na base do bom-senso, do saber ouvir e saber dialogar e ainda não caindo no erro de hostilizar, pelo contrário, mantendo por perto, embora afastados dos contactos directos com o MSCM, quadros que estiveram no epicentro da luta fratricida de 2012 (na realidade, começada uns anos antes). Paula Neves e o seu inner circle, sabe(m) que, a apresentação por parte do PSD de uma candidatura própria em Sintra às próximas eleições autárquicas, seria um erro que levaria o partido a mais quatro anos de afastamento do Poder, e ao risco de uma “pasokização” por tempo indeterminado. O apoio a Marco Almeida, dá tempo a acertos e consolidação da estratégia seguida – o esvaziamento do MSCM faz parte, não declarada, da estratégia -, e deixa espaço aberto para que, em 2021, “a carta” possa saltar do baralho…

Neste quadro, que nas próximas autárquicas, beneficia a candidatura de Marco Almeida e o PSD – o partido já declarou o seu apoio à candidatura do independente, sendo impossível contabilizar os votos em cada umas das formações que o apoiam-, permanecem questões por resolver que, curiosamente, vão/estão(a) exigir negociações duras e um bom entendimento Marco Almeida-Paula Neves. Primeiro, no desbloquear do apoio do CDS, ou de alguns militantes deste partido – não sei se os mesmos que, com a cumplicidade do PS, passaram ao jornal online “sintranotícias” a possibilidade do CDS ter, com Teresa Caeiro, uma candidatura própria. Depois, elencar as listas tendo em conta a proporcionalidade do actual peso político de cada formação e as raízes históricas no concelho. Por fim, encontrar “o caminho das pedras” para lidar com a política autista de Passos Coelho. Esta última das resumidas questões, será sem dúvida (um)a grande pedra no sapato, da candidatura do independente Marco Almeida se quiser apresentar uma candidatura ideologicamente transversal, nomeadamente ir buscar votos a eleitores que não se reviam, nem se revêm, no candidato indicado pelo PS/Sintra.

 

João de Mello Alvim

 

Um bico d´obra chamado Basílio Horta

Apresentado e defendido pela actual concelhia do PS como a melhor solução para voltar a conquistar o Poder em Sintra, Basílio Horta(BH) passou de solução a problema. Depois de conseguir uma mão cheia de nada nas negociações com a sua família ideológica, numa tentativa de esvaziar a candidatura do independente Marco Almeida, averbou novo fracasso nas “aproximações” à esquerda, que não esquece o seu percurso político, as ligações ao bloco central de interesses, nem o cariz autoritário da sua personalidade política e a “gestão excel” destes últimos três anos.

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A surpresa e indignação junto de muitos socialistas, e democratas que habitualmente votavam PS, pela indicação desta figura da direita radical para encabeçar a candidatura do PS em Sintra em 2013, nunca foi esquecida. A victória, à tangente, e a consequente distribuição de lugares calou a maior parte da contestação interna, provocando, por outro lado, um afastamento de muitos militantes, que não cederam nos seus princípios – a maior parte deles tinham estado fortemente empenhados nas anteriores candidaturas dos socialistas João Soares e de Ana Gomes. *

A gestão política errática e economicista, gerida por um homem com dificuldades óbvias em dialogar e encarar o que não seja a sua verdade, aliada ao horror que tem em sair “do paço”, para ouvir e ser confrontado com os problemas e anseios das populações**, e o escrutínio de uma oposição atenta que apontava/aponta o que ia/vai mal e estava/está podre no “reino de Basílio”, fez claudicar o plano inicial. Na verdade este plano, cujo grande eixo assentava na acumulação de milhões para “fazer obra e lançar projectos” em ano de campanha eleitoral – não vou cair no ridículo de dizer que foram três anos sem obra –, não obteve os resultados esperados, e isso mesmo indicam os cruzamentos de sondagens que têm vindo a ser realizadas.

Daí o recorrer ao um outro suposto trunfo de BH – o primeiro era o seu conhecimento do meio empresarial, via AICEP -, a sua boa relação com altos dirigentes e “altos influentes” do PSD*** e do CDS.  Como se sabe o trunfo virou flop. O mesmo aconteceu com as “aproximações” ao PCP e ao BE, que falharam praticamente antes de começarem, já que nenhum destes partidos mostrou interesse em “conversar”, tendo como pano de fundo uma candidatura que terá como cabeça de lista uma figura com um percurso tão marcadamente de direita, como é a de  Basílio Horta. Isto mesmo que os zelotas do PS insistam em branquear o seu percurso político/partidário e apostem na amnésia colectiva. Ainda bem que não se lembraram de indicar João César das Neves para cabeça de lista…

Resultado: aquilo que o omnipresente – e, ao que consta, omnipotente – presidente do PS/Sintra e velho manobrador do aparelho, vereador Rui Pereira, e o seu “inner circle” defenderam (para além do) acerrimamente, junto dos militantes, como “a solução” vencedora para Sintra, paulatinamente, vem-se revelando “o problema”. Esta análise começa a ganhar corpo no interior do partido provocando, ainda que a medo (porque, adaptando o velho ditado, “quem tem cargo, tem medo”), alguns desencontros internos e mesmo uma crescente afirmação das posições da única “aldeia gaulesa” da estrutura concelhia do PS. É caso para dizer que “os três anos de obra” de Basílio Horta, contra “os doze sem obra” de Fernando Seara, criaram um bico d´obra ao PS.

 

João de Mello Alvim

 

 

*Com tantas estórias conhecidas e vividas por dentro por militantes do PS/Sintra, sobre a propalada ausência de apoio a estas duas candidaturas por parte de dirigentes, e influentes locais do partido, para quando a divulgação das mesmas? Não seria um bom contributo para arejar o partido, recentrá-lo ideologicamente e evitar a actual sangria?

 

**Por mais que os assessores lhe façam o guião, o actual Presidente é como o escorpião da fábula, não é da sua natureza criar empatia.

 

***Aqui não importava, como não importou aquando do acordo que sustenta a actual governação em Sintra, que fosse Passos Coelho o Presidente do PSD…

 

 

As distorções e as pressões do desespero

 

 

Sensivelmente há um ano, na concelhia do PS/Sintra, o cenário era de grande optismo. Os que tinham defendido um militante socialista para encabeçar a lista às autárquicas de 2013(na linha de João Soares ou Ana Gomes), em vez de Basílio Horta – homem da direita trauliteira e da “casta partidária” do bloco central de interesses -, já tinham engolido, e digerido, o sapo. Por outro lado, na análise que faziam da vida política, o Movimento Sintrenses com Marco Almeida estava a definhar e “o PSD, em Sintra, não existe” – ouvi isto da boca de um poderoso dirigente. Neste cenário de ficção, como o tempo veio a confirmar, pensavam os estrategas que chegava divulgar a existência de milhões nos cofres da autarquia*, e fazer rodar a cassete dos “12 anos sem obra”, e um próximo mandato estava ganho.

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Mesmo quem aponta os maiores defeitos e inércia às gestões de Fernando Seara, aquilata do exagero do slogan e até se lembrará que, nesses “12 anos sem obra”, o PS teve pelouros…. o actual Presidente da Assembleia Municipal, Domingos Quintas, não tutelou a fulcral pasta das Finanças e, como tal, não teve responsabilidades na gestão, assim como mais dois vereadores eleitos pelo PS? Ou Domingos Quintas, conhecido pela sua honestidade pessoal e política, aceitou ser “verbo de encher” numa das gestões Seara? Por outro lado, a ajudar ao fracasso da estratégia seguida, o senso-comum não entendia/entende para que servem tantos milhões, se ficam nos cofres dos bancos e não  são aplicados em benefício dos munícipes.

Com sondagens nas mãos que indiciavam o erro da análise e estratégia política, o desespero levou a mais uma guinada na política errática seguida desde 2013. Da manga saiu o que se pensava ser um trunfo: usar a propalada influência do actual Presidente dentro da sua área de filiação ideológica, nomeadamente junto de altas personalidades do PSD e do CDS, na tentativa de minar e impedir a aproximação destes dois partidos à eventual recandidatura de Marco Almeida. Mas o resultado foi exactamente o contrário. Destes,   o PSD declarou o apoio ao independente, segundo palavras suas na recente divulgação pública da candidatura (basta saber em que moldes, mas isso faz parte da saída do labirinto em que o candidato independente ainda se encontra…)**.

Perante este desaire negocial***, a orientação da linha estratégica e do discurso do PS/Sintra, tinha de mudar. Os “12 anos sem obra”, passam a “refrão” e o enfoque da narrativa centrar-se-á na futura catadupa de inaugurações e projectos (daí o orçamento mais folgado), assim como protocolos a assinar com entidades associativas e outras, (medida anunciada durante a campanha e congelada durante três anos). A nível político, as directivas indicam que se deve fazer passar, a todo o custo, a ideia de que Marco Almeida não é independente, mas o candidato do PSD; e ainda, numa clara distorção do âmbito das eleições, que são autárquicas não legislativas, querem fazer crer que uma victória do candidato independente apoiado pelo seu Movimento e outros organizações e partidos, entre eles o PSD, contribuirá para uma possível victória do PSD/Passos Coelho a nível nacional. A mesma distorção, acompanhada por ameaças de excomunhão feitas pelos zelotas, paira sobre os militantes mais renitentes e eleitores de esquerda sem filiação partidária que, por não se reverem na orientação do PS e muito menos na filiação ideológica do cabeça de lista, personagem assumidamente de direita, ou equacionam, ou já decidiram votar no candidato independente Marco Almeida.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

 

*A fazer lembrar a frase “(…) temos os cofres cheios” de Maria Luísa Albuquerque, ministra de Passos Coelho, enquanto a maioria do povo português sofria com medidas gravosas impostas pelos burocratas da UE para defender o sistema financeiro. Ler mais: http://www.dn.pt/economia/interior/pais-tem-cofres-cheios-para-satisfazer-compromissos-diz-ministra-das-financas-4462359.html

 

** Ler mais:   https://www.noticiasaominuto.com/politica/697632/independente-marco-almeida-recandidata-se-a-sintra-com-apoio-do-psd

 

***A postura de arrogância política, própria de quem se dá mal com a democracia participativa, e a falta de empatia do actual Presidente junto dos sintrenses, foi uma das razões ponderadas e que jogou contra. É notório que Basílio Horta não tem a menor afinidade com a terra que governa, nem consegue estabelecer ligações afectivas com as suas gentes, e esse factor que, por nervosismo ou calculismo, os seus apoiantes desvalorizam, pode ser determinante na hora do voto.

 

Hospital em Sintra, fanfarronices e providência cautelar: é obra!

 

Nenhum dos partidos que governaram nas últimas décadas Sintra, está isento de responsabilidades políticas e fora da suspeição por não terem enfrentarem os negócios da saúde privada,  no que concerne à não existência de um hospital para a população do concelho. Por outro lado, o absurdo da anunciada apresentação de uma providência cautelar com a intenção de impedir a construção de um pólo hospitalar, só tem paralelo com o slogan dos 12 anos em que nada foi feito, e pode virar o feitiço contra o feiticeiro.

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Antes do hospital, e como disse o Ministro, desmentindo o actual Presidente de Câmara* que exigia um hospital em Sintra, e ameaçava o governo com conflito no caso da resposta ser negativa**, importa reforçar os Centros de Saúde tendo em conta a localização geográfica e, acrescento, o apetrechamento humano e técnico dos mesmos, o núcleo de valências, em articulação com os serviços que só um hospital pode prestar. E se, numa primeira fase, for concretizado o pólo hospitalar anunciado pelo Ministro, que o seja, mas que se mantenha a construção do hospital como meta e, muito menos, não se mascare a realidade. Um pólo não é um hospital e este devia de ser, há décadas, um dos objectivos nucleares de qualquer boa governação para Sintra.

Pelos vistos não é este o entendimento do candidato-dependente em comissão de serviço pelo PS que, depois de exigir um hospital em Sintra, depois de ser desmentido pelo Ministro, cria uma nova tipologia de hospitais, os hospitais não tradicionais, contradizendo-se e comprometendo o que diz o PS, ao afirmar que um hospital deste tipo(tradicional) não “tinha lógica” em Sintra**. Mas afinal Basílio Horta e o PS defendem um hospital em Sintra – aquele até ameaça, numa tirada de fanfarronice política, o governo com conflitos-, ou “a obra” fica pelo pólo hospitalar, porque é mais lógico?

Propagandear que a culpa de não haver hospital no concelho foi dos “12 anos sem obra”, é uma forma de branquear as responsabilidades (políticas e outras) do partido dos propagandistas que também estiveram, e estão à frente dos Executivos autárquicos.  Por outro lado, ameaçar com providências cautelares para impedir a construção do pólo hospitalar, é um direito legítimo que se vai voltar contra os autores e apoiantes da mesma, porque os eleitores não iriam perceber o que motivava a acção. Mais: a concretizar-se, será um grande favor à recandidatura de Basílio Horta pois, se a providência vier a ser acolhida, este terá um bom motivo para dizer que o hospital só não avançou, porque a providência cautelar o impediu…

 

 

João de Mello Alvim

 

 

*   “Não é um novo hospital, como o senhor presidente da Câmara de Sintra referiu (…)”um pólo do Hospital Amadora/Sintra [Hospital Fernando da Fonseca], sem internamentos e muito parecido ao modelo do hospital do Seixal”, Adalberto Campos Fernandes, Ministro da Saúde, Diário de Notícias, 6 de Novembro.

 

**  “É tempo de se fazer um hospital em Sintra. Não apenas no Seixal e em Évora, mas aqui!”, sublinhou Basílio Horta. “A nossa população não pode continuar a ser condenada a estar horas e horas na urgência do Amadora-Sintra e a ser deslocada para Cascais sempre que há um problema”, constata o presidente da Câmara, que pretende “centralizar um hospital em Sintra.”, Sintra Notícias, 19 e Outubro (ler notícia completa em: http://sintranoticias.pt/2016/10/19/ultima-hora-basilio-horta-exige-do-governo-construcao-hospital-sintra/

*** “É um hospital, não é um hospital tradicional, nem tinha lógica, porque já há o Amadora-Sintra e o de Cascais vai ser Cascais-Sintra”, Basílio Horta, Observador, 7 de Novembro

O dedo, a lua e os idiotas

Um dos slogans “de esquerda”, mais propagandeado pelos defensores da recandidatura de Basílio Horta à cabeça de uma lista do PS, é que Marco Almeida não recusa(rá) o apoio do PSD, e mesmo do CDS, nas próximas eleições autárquicas. É um típico exemplo da utilização do provérbio chinês, “Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo”. Neste caso, apostam os propagandistas, o tolo é o eleitor.

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Se o PSD de Passos Coelho fosse a linha vermelha de separação entre estas futuras candidaturas, porque razão Basílio Horta(BH) vem desenvolvendo , há meses, contactos  com altas personalidades deste partido? Excluindo o que seria o grande desejo desta figura da direita de construir uma candidatura apoiada no bloco central de interesses PS/PSD/CDS, onde sempre navegou, ao leme ou à boleia – aqui penso que até o actual líder do PS/Sintra, e encarniçado defensor da opção BH, teria dificuldade “em vender o arranjo” internamente -, não será difícil perceber que, em cima da mesa dos repastos, a ementa termine no (que seria o) corte e distribuição de fatias do bolo do Poder e adjacências, e a distribuição dessas fatias (essencialmente) por debaixo da mesa. E como não há almoços grátis, a conta será paga em géneros. Na próxima conjuntura, porque a casta é a mesma, só mudam os lugares, a distribuição é a mesma.

Por outro lado, o actual Executivo não tem governado com o apoio (escolham o nome que quiserem), do PSD, que assim lhe assegura a maioria absoluta? E este apoio não foi intermediado e conseguido graças ao conúbio de BH com as várias correntes da direita e “esquerda” dos negócios, acertado durante a governação de Passos Coelho e com a caução deste? Ou será que se o PSD apoiar, não o declarando, o candidato indicado pelo PS, a nomenclatura do PS/Sintra considera-se indultada para branquear a questão, assim como os verdadeiros socialistas sintrenses, engolem mais um sapo e dizem que era faisão? Mas, se o PSD apoiar o candidato Marco Almeida, é lançado o anátema e a questão passa a ser central e “prova” o envolvimento desta candidatura com o “pafismo”?

A forma politicamente instrumental como os cidadãos são tratados, o esquecimento selectivo que é introduzido na “narrativa pública”, diz muito da concepções políticas e democráticas de quem está à frente das organizações, sabe-se lá à custa de quantos golpes. Escudados na sigla, pensam que esta lhes dá alforria e insistem no discurso arrogante, continuando a apontar a lua, partindo do princípio, idiota, de que eleitores ficarão a olhar para o dedo, porque são tolos.

 

João de Mello Alvim