Com amigos como Ribeiro e Castro, Marco Almeida não precisa de adversários, em Sintra

 

O ataque desembestado do candidato à Presidência da Assembleia Municipal de Sintra José Ribeiro e Castro à reacção da deputada socialista Isabel Moreira às declarações homofóbicas do, prestigiado, médico Gentil Martins em entrevista, na semana passada, ao Expresso, para além de insultuosas, demonstraram ignorância histórica, preconceitos serôdios e afunilam, para a direita, a candidatura do independente Marco Almeida, em vez de a abrir à transversalidade ideológica.

The Constantine Report

Não está em causa o, enorme, trabalho de uma vida de Gentil Martins, nem a sua mais do que reconhecida competência científica, está sim em causa a expressão verbal de um preconceito que macula essa mesma experiência científica, ao considerar a homossexualidade “uma anomalia” e um “desvio de personalidade”, comparando a homossexualidade ao sadomasoquismo e a “pessoas que se mutilam”(sic). Precisamente por ocupar um lugar de referência, Gentil Martins devia ter “tento na língua” nas suas opiniões pessoais. É que, um lugar de referência não quer dizer a Referência. Quantos “gentis martins” por esse mundo fora, desde a civilização grega da qual herdamos praticamente tudo, têm opinião contrária?

Perante as declarações de Gentil Martins(GM), o Bastonário da Ordem dos Médicos dizia, ontem, em entrevista ao Expresso – e depois de considerar que pelo seu trabalho o médico era uma “voz nacional” -, que “de facto ele (GM) fez declarações com as quais a Ordem não pode estar de acordo”. Em relação a uma queixa apresentada contra GM, responde o Bastonário “que a queixa foi apresentada por uma médica, que fez uma longa exposição e que vai para o Conselho Disciplinar”(sublinhado meu).

Pelo meio, a deputada do PS, Isabel Moreira, pronunciou-se por uma urgente “denúncia à Ordem dos Médicos” de modo a que as declarações não passem “como se nada fosse”, considerando que o médico violou “a deontologia médica” com “consequências negativas” e “graves”. Ora esta posição da deputada, provocou o destempero de José Ribeiro e Castro que, no seu mural no facebook, considerou Isabel Moreira, “A deputada dos açoites e da perseguição, sempre zelosa na sua função policial. Segue a escola de direitos humanos da Stasi e da Gestapo.”(sic).É claro que a ira lhe toldou a razão e resvalou para o insulto, pois insultuoso é escrever que Isabel Moreira “segue” os exemplos das referidas organizações que nunca defenderam os direitos humanos e perseguiram violentamente os homossexuais. Em posterior artigo no jornal online de direita, Observador, a emenda de Ribeiro e Castro foi pior do que o soneto. E a saga continua no seu mural do facebook, com muitos adjectivos ridículos, substantivos incendiários, tudo subordinado a um visceral ódio político à esquerda.

Esta posição de Ribeiro e Castro, candidato à Presidência da Assembleia Municipal pela lista liderada pelo independente Marco Almeida, para além de confirmar a fábula da rã e do escorpião, afunila ideologicamente a candidatura que é sustentada pelo trabalho e persistência de 4 anos dos militantes e amigos do Movimento Sintrenses com Marco Almeida, e que foi posteriormente apoiada pelo PSD, CDS e cidadãos independentes de várias áreas políticas, incluindo a esquerda. É caso para dizer que, com amigos políticos como este, Marco Almeida não precisa de adversários, especialmente nesta fase em que a prioridade não será a de convencer os já convencidos, mas os indecisos, que mais indecisos ficam com tiradas como a comentada.

 

João de Mello Alvim

 

PS: Não me revejo completamente no pedido do Bloco de Esquerda pedindo que Marco Almeida se demarque publicamente das declarações de Ribeiro e Castro. Mas o silêncio sobre este episódio por parte da candidatura, será mais desagregador do que agregador, mais potenciador de sectarismos do que consensos. Em tudo contrário ao bom-senso político e gerador de pontes, que o candidato à Presidência da Câmara tem vindo a seguir.

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As distorções e as pressões do desespero

 

 

Sensivelmente há um ano, na concelhia do PS/Sintra, o cenário era de grande optismo. Os que tinham defendido um militante socialista para encabeçar a lista às autárquicas de 2013(na linha de João Soares ou Ana Gomes), em vez de Basílio Horta – homem da direita trauliteira e da “casta partidária” do bloco central de interesses -, já tinham engolido, e digerido, o sapo. Por outro lado, na análise que faziam da vida política, o Movimento Sintrenses com Marco Almeida estava a definhar e “o PSD, em Sintra, não existe” – ouvi isto da boca de um poderoso dirigente. Neste cenário de ficção, como o tempo veio a confirmar, pensavam os estrategas que chegava divulgar a existência de milhões nos cofres da autarquia*, e fazer rodar a cassete dos “12 anos sem obra”, e um próximo mandato estava ganho.

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Mesmo quem aponta os maiores defeitos e inércia às gestões de Fernando Seara, aquilata do exagero do slogan e até se lembrará que, nesses “12 anos sem obra”, o PS teve pelouros…. o actual Presidente da Assembleia Municipal, Domingos Quintas, não tutelou a fulcral pasta das Finanças e, como tal, não teve responsabilidades na gestão, assim como mais dois vereadores eleitos pelo PS? Ou Domingos Quintas, conhecido pela sua honestidade pessoal e política, aceitou ser “verbo de encher” numa das gestões Seara? Por outro lado, a ajudar ao fracasso da estratégia seguida, o senso-comum não entendia/entende para que servem tantos milhões, se ficam nos cofres dos bancos e não  são aplicados em benefício dos munícipes.

Com sondagens nas mãos que indiciavam o erro da análise e estratégia política, o desespero levou a mais uma guinada na política errática seguida desde 2013. Da manga saiu o que se pensava ser um trunfo: usar a propalada influência do actual Presidente dentro da sua área de filiação ideológica, nomeadamente junto de altas personalidades do PSD e do CDS, na tentativa de minar e impedir a aproximação destes dois partidos à eventual recandidatura de Marco Almeida. Mas o resultado foi exactamente o contrário. Destes,   o PSD declarou o apoio ao independente, segundo palavras suas na recente divulgação pública da candidatura (basta saber em que moldes, mas isso faz parte da saída do labirinto em que o candidato independente ainda se encontra…)**.

Perante este desaire negocial***, a orientação da linha estratégica e do discurso do PS/Sintra, tinha de mudar. Os “12 anos sem obra”, passam a “refrão” e o enfoque da narrativa centrar-se-á na futura catadupa de inaugurações e projectos (daí o orçamento mais folgado), assim como protocolos a assinar com entidades associativas e outras, (medida anunciada durante a campanha e congelada durante três anos). A nível político, as directivas indicam que se deve fazer passar, a todo o custo, a ideia de que Marco Almeida não é independente, mas o candidato do PSD; e ainda, numa clara distorção do âmbito das eleições, que são autárquicas não legislativas, querem fazer crer que uma victória do candidato independente apoiado pelo seu Movimento e outros organizações e partidos, entre eles o PSD, contribuirá para uma possível victória do PSD/Passos Coelho a nível nacional. A mesma distorção, acompanhada por ameaças de excomunhão feitas pelos zelotas, paira sobre os militantes mais renitentes e eleitores de esquerda sem filiação partidária que, por não se reverem na orientação do PS e muito menos na filiação ideológica do cabeça de lista, personagem assumidamente de direita, ou equacionam, ou já decidiram votar no candidato independente Marco Almeida.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

 

*A fazer lembrar a frase “(…) temos os cofres cheios” de Maria Luísa Albuquerque, ministra de Passos Coelho, enquanto a maioria do povo português sofria com medidas gravosas impostas pelos burocratas da UE para defender o sistema financeiro. Ler mais: http://www.dn.pt/economia/interior/pais-tem-cofres-cheios-para-satisfazer-compromissos-diz-ministra-das-financas-4462359.html

 

** Ler mais:   https://www.noticiasaominuto.com/politica/697632/independente-marco-almeida-recandidata-se-a-sintra-com-apoio-do-psd

 

***A postura de arrogância política, própria de quem se dá mal com a democracia participativa, e a falta de empatia do actual Presidente junto dos sintrenses, foi uma das razões ponderadas e que jogou contra. É notório que Basílio Horta não tem a menor afinidade com a terra que governa, nem consegue estabelecer ligações afectivas com as suas gentes, e esse factor que, por nervosismo ou calculismo, os seus apoiantes desvalorizam, pode ser determinante na hora do voto.

 

O dedo, a lua e os idiotas

Um dos slogans “de esquerda”, mais propagandeado pelos defensores da recandidatura de Basílio Horta à cabeça de uma lista do PS, é que Marco Almeida não recusa(rá) o apoio do PSD, e mesmo do CDS, nas próximas eleições autárquicas. É um típico exemplo da utilização do provérbio chinês, “Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo”. Neste caso, apostam os propagandistas, o tolo é o eleitor.

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Se o PSD de Passos Coelho fosse a linha vermelha de separação entre estas futuras candidaturas, porque razão Basílio Horta(BH) vem desenvolvendo , há meses, contactos  com altas personalidades deste partido? Excluindo o que seria o grande desejo desta figura da direita de construir uma candidatura apoiada no bloco central de interesses PS/PSD/CDS, onde sempre navegou, ao leme ou à boleia – aqui penso que até o actual líder do PS/Sintra, e encarniçado defensor da opção BH, teria dificuldade “em vender o arranjo” internamente -, não será difícil perceber que, em cima da mesa dos repastos, a ementa termine no (que seria o) corte e distribuição de fatias do bolo do Poder e adjacências, e a distribuição dessas fatias (essencialmente) por debaixo da mesa. E como não há almoços grátis, a conta será paga em géneros. Na próxima conjuntura, porque a casta é a mesma, só mudam os lugares, a distribuição é a mesma.

Por outro lado, o actual Executivo não tem governado com o apoio (escolham o nome que quiserem), do PSD, que assim lhe assegura a maioria absoluta? E este apoio não foi intermediado e conseguido graças ao conúbio de BH com as várias correntes da direita e “esquerda” dos negócios, acertado durante a governação de Passos Coelho e com a caução deste? Ou será que se o PSD apoiar, não o declarando, o candidato indicado pelo PS, a nomenclatura do PS/Sintra considera-se indultada para branquear a questão, assim como os verdadeiros socialistas sintrenses, engolem mais um sapo e dizem que era faisão? Mas, se o PSD apoiar o candidato Marco Almeida, é lançado o anátema e a questão passa a ser central e “prova” o envolvimento desta candidatura com o “pafismo”?

A forma politicamente instrumental como os cidadãos são tratados, o esquecimento selectivo que é introduzido na “narrativa pública”, diz muito da concepções políticas e democráticas de quem está à frente das organizações, sabe-se lá à custa de quantos golpes. Escudados na sigla, pensam que esta lhes dá alforria e insistem no discurso arrogante, continuando a apontar a lua, partindo do princípio, idiota, de que eleitores ficarão a olhar para o dedo, porque são tolos.

 

João de Mello Alvim

O pânico e o riso

A recente divulgação pública de uma, das muitas sondagens que os partidos fazem, na qual Fernando Seara aparece como o nome mais bem colocado para voltar a encabeçar uma eventual candidatura do PSD, às próximas eleições autárquicas em Sintra, já tinha feito disparar o alerta laranja nos profissionais, e aspirantes, do aparelho do PS local, que sabiam dos resultados da sondagem através do “sistema de vasos comunicantes”, tipo irmandade, que existe entre o PSD/PS.

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Mas, como é que a perder por 12-0 (doze anos “sem obra”, doze golos sofridos; três, “com obra”, baliza invicta), o esbanjador e incompetente ex-Presidente Fernando Seara, é o nome preferido dos sintrenses consultados na amostragem? Ingratidão insana do povo para com a gestão, cumpridora do prometido em campanha eleitoral, do actual Presidente, que, não só “faz obra”, como poupa milhões.

Por outro lado, não custa imaginar que toda esta excitação preocupada, tenho divertido à farta Fernando Seara. Não pelos resultados – que o comoveram, estou certo, sinal de que, embora não tenho feito “obra”, como propagandeiam, mantem com Sintra e com os sintrenses, uma relação afectiva, que o actual Presidente, por mais camadas de verniz que lhe “prantem” em cima, não consegue gerar – aliás o verniz estala (sempre) antes mesmo de ser posto à prova, a fazer lembrar a fábula da rã e do escorpião.

Não acredito que Fernando Seara venha a ser (re)candidato. Não porque não ganhasse, confortavelmente, as eleições se o aparelho do PS voltar a insistir – tendo em vista sinecuras futuras, mesmo com a derrota – no candidato vindo da direita trauliteira para cabeça-de-lista. Não se (re)candidata porque, embora ficasse ligado a Sintra e às suas gentes e goste do jogo político, Fernando Seara, tem percurso académico e profissional sólido, para andar à cata de emprego ou/ e outros dividendos político/partidários  e sabe-lhe bem “a sabática” a que se remeteu. A não ser que seja necessário um elo credível e motivador, para selar o fim da luta fratricida no PSD/Sintra…

 

João de Mello Alvim