Um mês depois

Faz hoje um mês que, numa reunião pública da Câmara Municipal de Sintra, a uma declaração minha sobre a política cultural em Sintra, o actual Presidente da Câmara, espingardeou para tentar confundir o motivo central da intervenção (a política errática e economicista seguida por este Executivo), com um motivo da minha vida pessoal, assim como (disse ele) o insucesso da associação cultural do concelho que dirigi cerca de 30 anos e, cereja em cima do bolo, como não lhe admiti a incursão na minha vida pessoal, assim como a demagogia dos números e da argumentação(?), disse-me, mais ou menos, que se quisesse mais alguma coisa podíamos conversarmos lá fora.

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Não me admirei com a desbragada e descontextualizada resposta (?) desta (triste) figura formada na direita trauliteira (e, sabe-se bem porquê, à cabeça como” independente” de uma candidatura do PS), pois, sobre a mesma, bem se pode dizer que é mais composta de traje do que de modos. Provavelmente dei-lhe troco em demasia, e aí estive mal, pois deixei que me levasse para o seu jogo provocatório. E sobre o “conversar lá fora”, não faltará oportunidade de lhe perguntar,  cara a cara, o que foi que ele quis dizer.

Um mês depois, e para encerrar o assunto, o meu agradecimento a todos os que me apoiaram na decisão, difícil, que tomei. Muitos fizeram-no com posts no facebook; a maioria, no entanto, fê-lo pelo telefone ou através de sms´s e mensagens privadas, e eu percebo o uso deste último meio. Assim como fiquei a perceber melhor outros, através das suas insinuações torpes, ou do  seu silêncio ruidoso, ou amedrontado, ou cúmplice, não declarado, com a “performance” do Presidente.

Duas notas finais: 1 – Ao contrário da mentira propalada, a minha mudança de residência para fora do concelho de Sintra, foi uma consequência, não a causa para sair da direcção da associação a que presidi, e com a qual continuo a trabalhar, agora noutras funções; 2 – Liberto das amarras que a minha função anterior me aconselhavam, voltarei, em breve, à regularidade com publicações neste mesmo blog, “Três parágrafos” (filho da coluna semanal do Jornal de Sintra de há uns anos atrás, ainda não passava pela cabeça de ninguém que  Basílio Horta fosse eleito Presidente da Câmara de Sintra, numa lista do PS…).

Uma errática e economicista política cultural

(Declaração lida por mim na reunião pública da CMSintra a 27 de Setembro, 2016)

 

Sr. Presidente,

Senhoras e senhores vereadores:

 

Por respeito aos presentes que acompanham e conhecem a minha actividade como agente cultural em Sintra – onde sempre lutei por uma democracia participativa e não pelo fogo fátuo do Poder -, quis vir aqui informar que me demiti de Presidente da Direcção do Chão de Oliva(CO), cargo que exercia desde a sua fundação, em 1987.

Demiti-me, entre outras razões, como forma de protesto contra a errática e economicista política cultural que este Executivo segue e que cada vez mais esvazia os escassos apoios às entidades particulares, e também como protesto pela ausência de um compromisso concreto, em relação à ampliação da Casa de Teatro.

Para mim, juntando o dito e o não dito, é claro que esta estratégia se insere num objectivo político, não declarado mas rigorosamente traçado: assegurar apenas a sobrevivência mínima da oferta cultural de iniciativa dos cidadãos, daí o corte, e manutenção do corte, das verbas atribuídas à Cultura e às actividades culturais na Educação (por exemplo, e no que ao CO diz respeito, a verba para a realização da 25ª Mostra de Teatro das Escolas de Sintra, mantem-se inalterada, desde que sofreu um corte há três anos, mesmo quando, este ano, a mesma completa 25 edições, o que a torna a mais antiga do país; o Prémio de Artes Performativas M.João Fontaínhas foi bloqueado de vez; a verba atribuída ao festival internacional Periferias, único pelo seu desenho e projecção no PALOp´s, mantem-se inalterada).

Enquanto isso, a actividade cultural vai ficando nas mãos dos “programadores” da câmara sob a direcção política do vereador a quem foi atribuído o pelouro; mas não se implementa a articulação, em rede, da oferta cultural pelo concelho (porque Sintra não é só a Vila), investe-se o mínimo na divulgação das actividades culturais que não tenham o selo da CMS, articulação e divulgação, essas sim da competência política do Executivo. Faz-se exactamente o contrário do que o então representante da lista que venceu as últimas eleições, disse no debate sobre cultura realizado na Casa de Teatro de Sintra (CT).

No que concerne à ampliação da CT, nunca defendi um tratamento diferenciado, nem um querer que andassem com o CO “ao colo”, nem tão pouco ignorei – os líderes das formações partidárias aqui representadas, sabem-no -, as dificuldades que o país atravessou e as autarquias passaram. Tive, como Presidente da associação, sempre presente a relação entre o nosso desejo e as condições objectivas que o país e a autarquia viviam, por isso, nunca insisti no arranque das obras, nos anos da asfixia financeira imposta pela troika (o Chalet do Torreão foi comprado, para ampliação, da CT em 2009 por proposta do vereador Luís Patrício) e, depois das eleições de 2013, acreditei na via do diálogo, e no dar tempo ao amadurecimento da política cultural do novo Executivo, para posterior elaboração do plano de obra.

A ampliação da CT corresponde a uma necessidade por todos sentida (quase todos…) de ter na Estefânia, ao serviço da comunidade, um equipamento médio, que intensifique, de forma articulada com os outros equipamentos existentes, a oferta artística e a vivificação daquela zona; intensifique e alargue as actividades de formação (o então candidato à presidência, Dr. Basílio Horta, aquando da visita ao CO durante a última campanha eleitoral, disse-me que tínhamos ali um bom exemplo de “escola formativa”, que, naturalmente, não pode crescer por falta de espaço); e, por fim, a ampliação da CT, resultará num equipamento médio que proporcione condições para a criação artística e programação de referência local, mas que se projectem a nível nacional e internacional.

(Eu sei que isto para o sr. Presidente é irrelevante, porque dizia que queria trazer a Sintra grandes nomes do teatro, da dança, etc, como se o produzido, de raiz, em Sintra com orçamentos asfixiantes, com personalidades e impacto nacional e internacional, fossem actividades de segunda categoria).

Já não refiro, como bons exemplos do apoio das autarquias à iniciativa dos cidadãos, o da cidade de Wuppertal à companhia Tanztheater  de Pina Bausch, um dos grandes nomes da dança mundial, infelizmente já desaparecida; ou da cidade de Avinhão em relação ao festival iniciado por Jean Vilar; mas podia referir a Câmara de Almada, ou então o município de Tondela e o seu apoio ao ACERT, estrutura associativa que dinamiza, há décadas, não só o município como a região onde está inserida, com reconhecimento não só em Portugal como fora do país.

Mais: não pode ser invocado qualquer argumento económico em relação à ampliação da CT. Primeiro, porque não há nenhum orçamento (há números lançados ao ar sem qualquer base técnica, sendo que o mais papagueado é o de 1 milhão), depois, como é público, a situação económica da autarquia, felizmente, é saudável.

Depois de muitas reuniões onde era clara a preocupação de nada de concreto assegurar, finalmente, foi-me garantido pelo sr. vereador da cultura, o final do primeiro semestre deste ano, para a apresentação de dados concretos. E dados concretos, não era a obra pronta, era, como inúmeras vezes disse (e tenho aqui vários senhores vereadores que o podem comprovar), um calendário para a execução da obra.

À data da minha demissão em AG (13 de Setembro), nada mais soube sobre o referido e explícito compromisso que tinha, como já referi, o final do primeiro semestre como data limite.

Como não acredito que o sr. Vereador tome, neste caso, não tome, medidas deste género ou fixe orçamentos dos vários pelouros que gere, sem o seu consentimento, considero-o, sr. Presidente, o principal responsável por este impasse; por este deliberado adiamento da promessa eleitoral; por este querer manter em estado bonsai, as actividades do CO.

Tenho fundada esperança, que, num futuro próximo, uma nova política culta, planificada e integrada seja implementada em Sintra; onde a cultura não seja confundida com actividades recreativas e de entretenimento, nem seja considerada a costumeira flor-na-lapela; uma cultura que não seja espartilhada por um orçamento tampão.

Tenho esperança que, ao contrário do que agora acontece, a iniciativa dos cidadãos não seja olhada como despesa (no sentido financeiro do termo), mas investimento (no sentido lato). A cultura é um bem necessário e raro, e não se traduz em finanças, é imaginação e pensamento a agir na mudança, é a mudança como horizonte qualificado. Tenho fundada esperança que a actividade artística e cultural em Sintra se liberte e seja encarada como um direito de cidadania, como uma alavanca que ajude a quebrar “o medo, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens que tendo o poder, julgam ter o saber” (cito, adaptando, o filósofo José Gil).

Como consequência desta demissão – não de sócio, nem de colaborador -, por um lado fico livre para voltar a exercer, em pleno, os meus direitos como cidadão que limitei – depois de ter sido posto em tribunal por um antigo vereador, um dos muitos que ficaram enterrados no cemitério da memória colectiva -, e limitei para evitar que novas revanches caíssem sobre o Chão de Oliva. Porque isto das penalizações, do “fechar a torneira” para quem ousa falar e ter opinião contrária aos que, de passagem tem o Poder, é como a história das bruxas…E cá estarei para ver, assim como a opinião pública sintrense, se esta declaração estritamente pessoal, vai fazer ricochete nos apoios futuros ao CO.

Ao sair da Direcção, saio do radar penalizador e da confusão que dá jeito fazer entre o Mello Alvim cidadão e o Mello Alvim Presidente do CO, e poderei continuar a resistir, contribuindo, com a experiência adquirida e, sem falsa modéstia, com o nome feito no meio cultural nacional e internacional, para a nova fase da actividade da associação, com a vantagem de não ter de vir a reuniões ziguezagueantes, inconclusivas e desrespeitosas, na Câmara. No entanto, para concluir, seria injusto não sinalizar que, ao longo de 30 anos, encontrei gratas excepções, não porque trouxesse sempre “sins” no final das reuniões, mas pelo relacionamento frontal, respeito institucional e compreensão da minha função por parte dos meus interlocutores, que passo a nomear:

Vereador Machado de Souza, Presidente , Vereador Felício Loureiro, Presidente Edite Estrela (primeiro mandato), Vereadora Vera Dantas, Presidente Fernando Seara, Vereador Luís Patrício, Vereador Baptista Alves, Vereador Marco Almeida, Vereadora Paula Simões e Vereador Pedro Ventura.

 

Obrigado pela atenção e muito bom dia.

 

Sintra 27 de Setembro de 2016

DA ARROGÂNCIA ENVERNIZADA, OU DA DIFICULDADE DOS NASCIDOS E CRIADOS NA DIREITA RADICAL, EM VESTIR O FATO DE DEMOCRATAS-NOVOS

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A estória foi, mais ou menos, assim (corrijam-me no que não for) e diz muito dos que, crescidos na direita radical, por mais reciclagem, interesseira, que queiram fazer, ficam sempre muito apertados no fato de democratas-novos.

A Associação Cultural Utopia, num gesto de grande dignidade, decidiu que nas actuais circunstâncias, devia acabar a sua actividade no panorama cultural de Sintra. Lançou um livro dos 20 anos de actividade e foi concebida uma performance da morte da Utopia, integrada numa edição da recente iniciativa, Ofensiva Armada.

A performance começou em frente do Legendary , conhecido bar na rua Dr. Alfredo Costa/Sintra , onde a associação nasceu, e tinha como objecto central um caixão transportado e acompanhado, por membros do grupo e outros criadores amigos, mas aberto também a quem se quisesse associar, no percurso entre o icónico bar e o Olga Cadaval. Dentro do Olga Cadaval continuaria a performance.

Não é preciso muita imaginação para ver no objecto caixão um símbolo, e não qualquer intuito de ofensa (mas a quem, pergunto?).

Pois não é que “de cima” choveu um primeiro telefonema a “desaconselhar” a performance? Mas o cortejo tinha autorização da Polícia Municipal. Então, num segundo telefonema, “de cima”, veio (sem máscara) a ameaça que se o caixão entrasse no OC, cortavam-se os apoios. Depois da (curta) perplexidade pois cada vez mais a máscara vai caindo, gerou-se a dúvida: a quem é que se cortava o apoio (o conhecido “fechar da torneira”), se a Utopia estava morta? Ou seria o subsídio de funeral?

Se o ridículo matasse, não seria um, mas dois funerais. Pessoalmente só lamentava (como lamento) o da Utopia.

 

Da prosápia merceeira,oportunista e ignorante

Hoje a Compª de Teatro de Sintra estreia a sua 73ª produção. O texto não é de um qualquer obscuro autor, mas de um incontornável mestre do teatro do séc. XX, Tennessee Williams, e assina a encenação (a adaptação e tradução) não um nome qualquer, mas uma especialista da obra do mestre, a Graça P. Corrêa. O Chão de Oliva (CO), aqui através de uma das suas estruturas criativas, a Compª de Teatro, dá assim mais um passo na afirmação de um percurso artístico que para o ano somará 30 anos ao serviço da comunidade.

Por esta e outras razões, é-me penoso ver o CO andar, constantemente, com o coração nas mãos, obrigado à via-sacra dos pedidos, a insistir, a ser tratado como concorrente pelas castas instaladas, a ser tratado como subsídio-dependente, a obter apoios que partem de preâmbulos do género: “isto é para o teatro, coitados, se não dermos eles desaparecem”. Isto dito por “personalidades” que vivem à babujem erário público.

Não falo em tratamento de excepção, mas adequado. O Chão de Oliva faz um trabalho de utilidade pública em várias áreas, tem direito a ter apoio oficial (que na maioria dos casos é substancialmente inferior ao gasto directamente pelas mesmas entidades oficiais, num só “evento de acender e a apagar”, do qual só fica um efémero rasto). A associação, juntamente com outras estruturas particulares, contribui com cerca de 80% da oferta anual artística (criativa e formativa) em Sintra. Como tal merecia mais respeito, carinho e estímulo por parte dos poderes. E não faço generalizações, sei quem entende, reconhece e estimula este trabalho, como sei quem, ou por pedantismo, ou com medo (ridículo) de perder protagonismo, ou porque não gosta de mim, ignora a importância de ter instalado no concelho, entre outras, uma associação com o historial e o prestígio do Chão de Oliva.

Pessoalmente estou a atingir o limite. Estou farto de aturar enfatuados paraquedistas que, por percursos ínvios (mas essencialmente tendo em conta os seus objectivos pessoais), à custa de cartões partidários, ou encostados aos mesmos, se arrogam o direito de, como eles dizem, “abrir e fechar torneiras”. Puta que os pariu!

Podem parar o crescimento do CO ou mesmo contribuir para o seu definhamento. Duas coisas essas cabecinhas formatadas não vão nunca conseguir: apagar o historial do grupo, a sua importância na potenciação do movimento artístico em Sintra; a segunda é que não me vão esmagar, porque já enriqueci à custa dos subsídios dados ao Chão de Oliva! Vivo numa casa alugada, tenho dois carros (um de 1990), cerca de três mil livros, uma mulher, uma filha dois netos (um já cá, outro a chegar), e um cão. E, acima de tudo, tenho a consciência tranquila.

(ESTE TEXTO FOI ESCRITO NA QUALIDADE DE CIDADÃO E NÃO DE PRESIDENTE DO CO)

“Os filhos da Lua”, foto (de ensaio) de António Bagorro
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Ainda sobre a função do Antigo Casino

IMG_1910Já expressei que não partilho a visão do meu amigo João De Oliveira Cachado, quanto ao Sintra Museu de Arte Moderna – não por preconceitos artísticos, pelo contrário acho que muito palpite sobre a arte contemporânea é dado por iliteracia no que à mesma diz respeito, mas pela falta de dinâmica e consequente afirmação do projecto, que a estimável Maria Sousa Franco não conseguiu imprimir, e ainda pelo contrato, desproporcionado e em seu desfavor, que a Câmara assinou. Também não estava de acordo com a instalação da colecção do mestre Bartolomeu Cid no Antigo Casino, por não estar convencido que a instalação do espólio deste gravador de prestígio internacional, fosse a melhor opção na actual gestão dos espaços municipais, assim como na dinâmica da oferta artística na Estefânia. 

A solução MU.SA, como está, entendo-a como solução transitória. Ou seja, deslocar o acervo de obras plásticas e publicações da CMS para o antigo Casino, parece-me uma decisão acertada e adequada ao vazio que estava instalado, logo que essa deslocação assente numa estratégia mais ampla que vise abrir aquele belo edifício para as artes em geral, nomeadamente as performativas. Há espaço suficiente e salas para a exposição permanente, exposições temporárias, projecção de filmes (porque não Fernando Morais Gomes  ?), mas também para a realização regular de workshops de artes performativas, apresentação de espectáculos (há salas com pé direito suficiente para a instalação de teia, ao contrário do raquítico pé direito do Auditório Acácio Barreiros), oficinas de escrita criativa, residências artísticas e mesmo congressos, fora ou dentro (porque não?) da esfera artística.

Ou seja, o MU.SA não pode mumificar. Mas para isso as actividades extra exposição permanente (e têm acontecido algumas, de forma desgarrada) têm de ter espaços vocacionados para tal, planificação atempada (em articulação com os agentes culturais activos do concelho) e lançada, pelo menos, semestralmente, para criar regularidade da oferta. Mas a divulgação tem de fazer parte de todo este processo. Neste particular, chamo a atenção para um pormenor que não é, pois pode ser interpretado como um programa de actuação: o paquidérmico e periclitante telão, que sinaliza o MU.SA, impede que naquele espaço se divulguem actividades que estejam a decorrer. A divulgação é relegada para o site da CMS ou cartazes, alguns em A4, colocados na porta de acesso, longe do olhar do potencial público. A sinalização do MU.SA deve lá estar na frontaria do antigo casino, mas não impedir que, horizontal ou verticalmente – não ultrapassando a superfície do actual –a existência de um segundo telão onde sejam colocadas as outras actividades a promover. Isto potenciado por uma divulgação que não obrigue o meu amigo António Luís Lopes a um trabalho exaustivo, suponho, de pesquisa na net, para nos mostrar um “clipper” das realizações extra exposição permamente…

A dinamização do eixo cultural Vila/Estefânea (centrando nesta mais a oferta artística regular e variada) é uma velha discussão que arrefece com o passar do tempo, amancebada com o comodismo do deixa-andar. A vitalidade deste eixo, não vai tornar Sintra numa Viena, ou numa Copenhague, entre outras razões, porque não temos a tradição cultural secular destas duas cidades, nem os orçamentos destinados à cultura. Por formação, sou optimista, por estar muito escarmentado, sou um optimista/céptico. Por isso, comungo com o João Rodil , “dar tempo ao tempo para que (o MU.SA) encontre o seu caminho-, e quero acreditar que o MU.SA não nasceu para tapar um buraco, mas insere-se num esboço de estratégia para o transformar o Antigo Casino num espaço multi-funcional, no campo das artes, esboço esse que, para se substanciar em estratégia, irá em breve contar com a opinião dos agentes culturais activos do concelho e de personalidades de inquestionáveis méritos culturais.

Por outro lado, faço votos para que os agentes políticos não tenham medo de perder protagonismo, nem “o aparelho” camarário considere “uma chatice”, ou contumélia, ter de trabalhar articuladamente com estruturas ou criadores exteriores à Câmara. Esta articulação, que não vai beliscar a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, não pode ser encarada como concorrência, mas como convergência no mesmo desígnio de afirmar Sintra não só pela paisagem natural e edificada, mas pela implicação dos sintrenses e visitantes – a tal dinâmica que faltou ao Sintra Museu – na oferta artística variada, regular e alternativa aos “grandes”, mas efémeros “eventos”. Estes, que mordem a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, dão muita visibilidade ao promotor, juntam muitas pessoas, mas não lançam raízes para a formação e fixação de públicos informados e cultos.