25 de Abril: comemorar sempre a democracia e a responsabilidade cidadã

Não faz sentido que não se comemore o 25 de Abril na Assembleia da República. Como não faz sentido que, na actual situação de estado de emergência e normas de comportamento profiláctico devido às razões que se conhecem, sejam convidadas tantas pessoas para um espaço fechado e, ao que ainda há pouco ouvi, sem ser exigido o uso de máscaras.

Um representante de cada partido, um representante das personalidades e um representante das entidades habitualmente convidadas, com as distâncias físicas asseguradas e usando as protecções que são indicadas ao comum dos cidadãos em espaços públicos, não invalida o simbolismo da cerimónia e era um sinal clara de as normas indicadas pelas autoridades sanitárias são para cumprir por todos os cidadãos independentemente da sua condição ou cargo.

A comemoração nos moldes em que está anunciada, é um mau exemplo dado pela Casa da Democracia paradoxalmente no dia libertador da ditadura política. Assim se espicaçam os ataques desembestados contra a classe política, assim se alimentam os populismos.

Espero que nestes três dias que faltam, o bom-senso prevaleça.

 

João de Mello Alvim

 

ARepública

 

A dessintonia entre partidos e movimentos cívicos, em Sintra

 

Um dos problemas capitais dos partidos, é o de não estarem, nem procurarem estar, sintonizados com os movimentos cívicos ou então insuflarem os seus próprios movimentos na ““abertura da caça ao voto”, para  melhor os controlarem e desactivarem “cumprida a missão”. São resquícios de anos e anos de falta de discussão política aberta e descomplexada que herdamos do antes do 25 de Abril, a que se somam os vícios claustrofóbicos e de formatação do pensamento e medos da perda de influência, que os aparelhos prescrevem e se certificam da sua aplicação.

Mas mais grave é quando, entidades organizadas de intervenção política eleitoral, que aparecem, ou dizem aparecer em ruptura com estas práticas herdeiras do “pensamento único e acção centralizada”, adoptam a mesma postura. Refiro-me nomeadamente aos movimentos independentes que se assumem como alternativas a anquilosadas práxis do exercício da política. Até podem inovar no sentido do organigrama interno, mas mantêm reservas para com iniciativas dos cidadãos que não sejam lançadas por militantes seus, independentemente das mesmas terem por objectivo a defesa do bem-estar das populações, e causas que dizem respeito a toda a comunidade. Os partidos e os movimentos de intervenção política eleitoral, não têm o monopólio da intervenção na Pólis, nem devem querer ter. Devem exercer as suas funções ditadas pela discussão interna (quando a há…), mas não podem encarar as actividades do movimento associativo, como marginais no pulsar da sociedade. É um erro político de palmatória, é uma limitação ideológica, é um encarar o cidadão apenas como eleitor, e negar-lhe os seus direitos de cidadania é, em última instância, uma atitude anti-democrática porque a democracia não esgota, nem pode esgotar-se, na acção dos partidos ou movimentos de cariz partidário.

Tudo isto a propósito da causa, em boa hora lançada e coordenada, pela Associação Alagamares, de contestação do polémico “e escandaloso abate de cerca de 1400 árvores no perímetro florestal da serra de Sintra em defesa”. Entre várias iniciativas, a Alagamares juntou, no passado dia 3 para um debate-ponto da situação, representantes da associação promotora e também, cito o comunicado resumo da reunião, “da Associação de Defesa do Património de Sintra, SintraPenaferrim, (Re)pensar Sintra, Sintra sem Herbicidas, Quercus, PAN, Bloco de Esquerda, PEV- Partido Ecologista Os Verdes, além de diversos cidadãos a título individual. Foram endereçados convites a todos os partidos políticos com representação parlamentar e municipal, bem como a diversas associações e personalidades, tendo comparecido os que puderam e quiseram”. Do espectro partidário estiveram então o PAN, o Bloco de Esquerda e os Verdes. E então o PS/Basílio Horta que dirige a autarquia e os “parceiros de acordo”, o PSD e a CDU? E o Movimento Sintrenses com Marco Almeida? Não estamos perante uma situação que exige a participação de todos os sintrenses, organizados, ou não, em partidos ou movimentos? E se há eleitos, com ou sem pelouros, que as estruturas partidárias  têm na Câmara, não seria uma altura ideal para os partilharem e esclarecer os presentes? Ou lá voltamos à dicotomia, castradora, de que “o que não é lançado, e controlado, por mim, é contra mim”?

 

João de Mello Alvim

imagem blog Delas