Mais um projecto “muito interessante”, para descaracterizar a Vila, em Sintra

A febre do alojamento turístico em Sintra, de todo o tipo de valências, está a atingir picos preocupantes com o actual Executivo. Mais grave é que nesta, como noutras áreas da governação, na planificação, na gestão do todo e na prevenção de futuras situações gravosas e irreversíveis para preservar a classificação de Património Mundial, ou seja, a orientação política, é o que menos importa. O negócio, em nome do desenvolvimento, é quem mais ordena.

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Na Vila, perto da Fonte da Sabuga e do (abandonado)Parque da Liberdade, uma zona que pelas suas características deveria ser objecto da mais cuidada preservação*, vai nascer mais um equipamento hoteleiro, o Hotel da Gandarinha (do Grupo Turim Hotéis), que terá os seguintes dados numéricos globais: Área do Terreno: 5.843 m2; Área Total de Construção (excluindo o estacionamento): 5.555 m2; Área Total de Estacionamento (incluindo acessos e áreas técnicas): 3.900 m2; Coeficiente de Ocupação do Solo: 0,44;Coeficiente de Afectação do Solo: 1,01;Número de Estacionamentos Interiores: 155 lugares; Área do Núcleo de Salas Polivalentes: 360 m2; Número de Quartos: 96; Classificação Requerida: Hotel de 4 Estrelas**.

Não cabe numa crónica deste tipo, a investigação de um eventual emaranhado de interesses que que poderá estar por detrás desta aprovação assim como, por exemplo, da recente divulgação da construção de um hospital privado pelo Grupo Mello e ainda da mal explicada compra da Quinta Mont Fleuri. Para isso há, ou devia haver o jornalismo de investigação, e não havendo localmente espero que o assunto desperte interesse ao José António Cerejo… Mas já cabe neste espaço colocar algumas perguntas, não para as respostas pré-formatadas dos defensores da solução PS/Basílio Horta – agente político com grande experiência no mundo dos negócios, “ramo” onde se fez a maior parte do seu curriculum -, mas para quem gosta de Sintra e, ainda mais, de pensar pela sua própria cabeça.

Depois de um período de insuficiência, Sintra já tem oferta hoteleira mais do que adequada às suas características peculiares, ou em nome de um desenvolvimento “interessante”***, só se vai parar quando se atingir o patamar das barbaridades niveladoras cometidas nos anos 80 por esse país fora? Foi acautelado o esperado aumento do fluxo de trânsito para o centro da Vila já que há apenas uma via a servir o futuro hotel, a rua Visconde Monserrate? Porque razão, que eu saiba, nem os partidos da oposição (Movimento Sintrenses Com Marco Almeida e Bloco de Esquerda), nem os vários movimentos associativos que tão bem têm estado, entre outros,  no caso do projectado abate das árvores e na denúncia da turistificação de Sintra, estão calados perante este “interessante” projecto, apoiado com um fervor quase revolucionário, passe a heresia,  pelo recandidato Basílio Horta?

 

 

João de Mello Alvim

 

 

 

 

*-Ver aqui

**- Conferir declarações de Basílio Horta ao Diário Imobiliário (6/10/2016):”(…) “Durante tantos anos esteve tudo parado e, finalmente, os projectos estão a acontecer. São todos projectos muito interessantes. A este nível é quase uma revolução em Sintra como se pode ver pelo valor do investimento e do aumento da oferta deste tipo de serviços”, afirmou Basílio Horta. O presidente da Câmara relembrou ainda: “Quando tomámos posse tínhamos pensado neste desenvolvimento para Sintra e (agora) todos podem ver que está a acontecer”

 

 

 

 

 

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Que é feito da “cidade Sonae”, defendida por Basílio Horta?

 

É um projecto que se arrasta desde finais dos anos 90 do século passado, que emerge e submerge, mas, garante quem sabe, não está encerrado. Pode, a concretizar-se, ser mais uma prova da resistência ao trabalho planificado pela maior parte das autarquias e ainda da sofreguidão pelo efeito do imediato, em detrimento do futuro. Duma pretensa modernidade bacoca, que acirra a acefalia do consumismo desenfreado, que não tem em consideração o desenvolvimento sustentado das regiões, e onde quem ganha são os grandes interesses económicos, geralmente em desfavor da qualidade de vida das populações.

imagem CMS, publicada no Público de 7 de Janeiro de 2015

Segundo o jornal “Público” de 7 de Janeiro de 2015, escrito pelo jornalista (digno do nome) José António Cerejo, “(…) aos actuais Fórum Sintra, Sintra Retail Park, Leroy Merlin, Staples e Decathlon, e ao já aprovado Jumbo, todos eles no termo do IC19, entre Rio de Mouro e Ranholas, deverá juntar-se um novo centro comercial da Sonae (grupo proprietário do PÚBLICO). O estabelecimento, que terá uma área de construção próxima dos 35 mil m2, perto do dobro da do futuro Jumbo, funcionará como a âncora de um território de mais de 70 hectares, a que Basílio Horta, o autarca de Sintra, tem chamado Cidade Sonae”. De então para cá, o Jumbo já foi construído, e o Plano de Pormenor da Abrunheira Norte está em banho maria, graças à forte oposição e resistência da população**. Por outro lado, a bizarra ideia de uma Sintra dos Pequeninos não passou(?) da bizarria*, e a então Directora Municipal de Planeamento, Ana Queiroz do Vale, ao que consta com as orelhas a arder***, ficou sem o Planeamento e trata agora só do PDM. Do auto anunciado candidato do PS às próximas eleições autárquicas, nunca mais se ouviu uma palavra sobre a Cidade Sonae. Mais uma derrota? Se foi assim, ainda bem, pelo futuro de Sintra e da qualidade de vida dos sintrenses que em Sintra continuarão depois de acabada a comissão de serviço de Basílio Horta.

Os contornos, conhecidos, da crismada “cidade Sonae”, são um exemplo eloquente do que não se deve fazer na gestão de um território que é habitado por pessoas, pormenor que o PS/Basílio Horta tem tendência a esquecer. Desde logo porque desafia qualquer planificação das linhas estratégicas do território, assim como, no caso especial de Sintra, a harmonização e a defesa do Património natural e edificado, com novas necessidades construtivas. Isso se vê, caso seja aprovado o projecto, na referida proximidade da zona tampão à Serra, e ainda na concentração, numa área geográfica relativamente reduzida, de quase todas as marcas de grandes superfícies comercias na versão hipermercado. A agravar a situação e a incapacidade(?) deste, e na verdade se diga, de outros Executivos, está a questão da acessibilidade e mobilidade, que é (sempre) colocada ao contrário. Primeiro constrói-se, depois logo se vê como se resolve o problema viário, sendo que neste caso, a sobrecarga vai para o já entupido IC19.

Que “moderação e negociação”, se esconderão sob nomes pomposos, como este da “cidade Sonae”, que levou o recandidato do PS às próximas autárquicas, a declarar:” “Não podemos querer a cidade sem a parte comercial. Não pode ser porque é a Sonae que vai fazer o investimento directo e fomentar o resto. Temos de moderar, negociar, mas na minha opinião devemos ter aquela cidade, que muda muito a freguesia e é importante em termos de receitas”. Para acumular os parados milhões que estão depositados nos bancos?**** Que “moderação e negociação” é esta, que não tem em conta o concelho como um todo sinergético e parece ir a reboque dos interesses dos grandes grupos financeiros – este projecto, sem o ridículo Parque Temático, da Sintra dos Pequeninos, não podia ser uma boa alavanca de desenvolvimento da zona norte do concelho, servindo de ligação, harmoniosa, entre o rural e o urbano e com duas AUGI`s para resolver, nas Uniões de Freguesias de Almargem do Bispo, Pero Pinheiro e Montelavar e também na de S. João das Lampas e Terrugem?

 

 

João de Mello Alvim

 

 

*Num post publicado no Facebook, escreveu João de Oliveira Cachado: “Para anedota mais acabada que já vi figurar num projecto, lembro-lhe o da Cidade Sonae, que pressupunha a concretização de um parque temático com uma designação qualquer parecida com ‘Sintra dos Pequenitos’ (provavelmente, inspirada no ‘Portugal dos Pequenitos’ que a Fundação Bissaya Barreto implantou em Coimbra noutras eras e que, ainda hoje, tanto sucesso tem). O objectivo, pasme-se, era levar as pessoas a um recinto onde, em réplicas-miniatura, principalmente as crianças, poderiam «visitar» os monumentos que, bem reais, estavam a mais ou menos algumas centenas de metros… E o projecto chegou a ser defendido pelo Dr. Basílio Horta, pelo seu executivo e técnicos municipais”.

** https://www.change.org/p/sr-presidente-da-c%C3%A2mara-municipal-de-sintra-exigimos-que-n%C3%A3o-seja-permitida-a-constru%C3%A7%C3%A3o-da-cidade-da-sonae-em-sintra

***Não seria de admirar se tal fosse verdade. Teria ficado entalada entre as directivas do Presidente da Câmara, e o presidente da concelhia, e vereador do Desporto, Juventude e Turismo, que sempre resistiu a esta acumulação de funções, provavelmente por ter outros nomes para o lugar.

****Segundo comunicado da oposição, Movimento Sintrenses com Marco Almeida, de 30 de Março último, e ainda não desmentido pelo Executivo PS/Basílio Horta, o “saldo de gerência em 2016 (…) quase chega aos 75 Milhões€ o investimento quedou-se pelos 9 Milhões”. É obra!