Mais uma derrota da recandidatura de Basílio Horta, a Sintra

 

Se internamente, a preparação da recandidatura de Basílio Horta às próximas autárquicas em Sintra (que é certa por mais “fugas de informação” que sejam sopradas em sentido contrário), não decorre no clima mais consensual, na manga, ou em cima da mesa, há cartas para jogar até ao inicio da vindima. O objectivo é claro e público – enfraquecer a candidatura do independente Marco Almeida -, mas, até agora, a inabilidade política e entendimento peculiar de democracia do actual Presidente, ou a esperada manutenção das regras para as eleições, têm desferido sucessivos golpes no sucesso da recandidatura.

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(imagem  no-te-juzgues)

 

É que, se internamente os sinais de descontentamento e as tímidas discordâncias com a forma de conduzir o processo, começam a ganhar mais força sem, no entanto, tomarem corpo de confronto*, a recente aprovação (com votos contra do PSD, PCP e PEV) em Plenário da Assembleia da República das novas regras para as eleições autárquicas, rebentaram mais um dos elos em que assenta a estratégia delineada por Basílio Horta.

E aprovado foi que, ao contrário do que acontecia até aqui, as candidaturas independentes “podem ser alteradas, por substituição de candidato quando se verifique a morte, desistência ou inelegibilidade dos candidatos, até um terço dos efectivos sem que seja necessário voltar a apresentar os nomes”. Mas, mais frustrante para a recandidatura, foi aprovado que “as candidaturas independentes passam também a poder utilizar a sigla e símbolo que não se podem confundir com os dos partidos ou outros grupos de cidadãos, deixando de ser identificadas pela numeração romana”.

Se, com a primeira medida, foi corrigida uma injustiça para com as candidaturas independentes, já que a anterior lei não se aplicava aos partidos, a segunda alteração dá “rosto gráfico” às candidaturas independentes – em detrimento dos símbolos dos partidos apoiantes -, o que resulta em mais uma machadada no argumento de que, em Sintra,  Marco Almeida é candidato do PSD-mau, porque só seria do PSD-bom, se aspergido por Basílio Horta e pelo PS/Sintra, com o qual estabeleceu em 2013 um acordo de governação, que ainda vigora.

 

 João de Mello Alvim

* Refiro-me, por exemplo, aos ensaios sobre a formação da lista para o Executivo, onde Rui Pereira, e o seu “inner circle”, parecem não estar a conseguir impor os seus argumentos e alinhamento de nomes e, ao que parece, manter a influência política junto do recandidato, agora em rota de aproximação a Domingos Quintas – entregue que está, por relevantes serviços prestados, o primeiro nome da lista à Assembleia Municipal. A ver vamos, até porque a ser verdade esta “reviravolta de ingratidão”, pode vir a concretizar-se o ditado, “não há ponto, sem nó”…

 

 

 

Marco Almeida no (seu) labirinto

Uma derrota por escassos votos como independente, mais três anos de funcionamento do seu Movimento com dinâmica e oposição activa nos diversos órgãos autárquicos, nomeadamente na Câmara e na Assembleia Municipal – coisa que há muito não se via em Sintra; a necessidade de entrar no eleitorado urbano e ainda a pressão, em forma de tenaz, que os partidos que desde sempre governaram a autarquia, têm vindo a fazer sobre a projectada candidatura, empurraram/empurram Marco Almeida para um labirinto.

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Depois da derrota em 2013, poucos foram os que apostavam na continuidade do Movimento Sintrenses com Marco Almeida (MSCMA). Perante a constatação do erro de prognóstico, movimentações do bloco central, PS/PSD, logo começaram tendo como ponta-de-lança um dos fundadores do CDS e actual presidente da Câmara, indicado pelo PS. A ideia era(é) isolar Marco Almeida, agitando o fantasma do “desvirtuamento do sistema democrático” com a erupção do “populismo” dos independentes e, ao mesmo tempo, subir a parada na distribuição de cargos e tráfico de influências, dentro da lógica de “casta partidária” que sempre tem funcionado em Sintra, e pelo país. A outra pinça da tenaz, é apertada pelo PSD, que jogava(joga)nos dois tabuleiros: no da “casta partidária”, a que sempre pertenceu, e na aproximação a Marco Almeida, apelando à sua área ideológica, já que um acordo com o candidato independente pode ser o único caminho para uma não derrota (para a contabilidade do PSD a nível nacional), e para o Poder. A fazer fé nas últimas notícias, a distrital do PSD aprovou “o apoio do partido à candidatura de Marco Almeida” à Câmara de Sintra, não sendo divulgadas as condições, o que pressupõe que a negociação ainda não está fechada, e que a tenaz continua a apertar.

Concorre para o labirinto o próprio Marco Almeida(MC), pois, se em 2013 o nome do seu Movimento foi agregador, em 2017 pode ser condicionar o voto, especialmente junto dos novos eleitores. Por outro lado, a forte implantação no meio rural do Movimento do antigo vice-Presidente, é inversamente proporcional à implantação no meio urbano (e, já agora, no cultural/urbano), sendo que este desequilíbrio poderia ser contrabalançado com o apoio do PSD. Mais: se a condição central para o apoio, for a de que MC seja o candidato indicado pelo PSD, passando assim de independente a dependente não filiado, qual será a reacção dos apoiantes que têm mantido a dinâmica do MSCMA?

Só uma grande argúcia e maturidade política, conseguirão suprir a ausência do fio Ariadne, para indicar a saída do labirinto em que Marco Almeida se encontra, mantendo a condição de independente.

 

 

 

João de Mello Alvim

Independentes e dependentes

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Se um independente é aquele que não tem filiação partidária, Marco Almeida(MC) é um independente, pese todo um processo (para mim pouco claro) que o levou à ruptura e posterior expulsão do PSD (aqui, para mim, mais claro, por entrar em colisão com os estatutos), que se mantêm na sua área ideológica, mas não concorreu, nem irá concorrer, por um partido. Já Basílio Horta (que não sei se ainda tem o cartão do CDS), concorreu e ao que parece concorrerá, indicado pelo PS*, partido que, teoricamente, não ter a ver com a sua área ideológica, mas onde esta figura, da direita radical, encontrou a sua “placa de portas-giratórias”, basta conferir o seu percurso político a partir do final dos anos 90. Basílio Hora(BH) é, assim, um independente-dependente que vem suprir, à consignação e, não custa a crer, escorado em “cláusulas de conforto”, a impotência** do PS local em encontrar, para cabeça de lista às eleições autárquicas, uma personalidade dentro do próprio partido, ou de esquerda, de Sintra, ou não, que aceitasse o desafio pelo gosto do desafio da governação e não para (continuar a) ter direito a um visto-gold no “toma lá, dá cá” do bloco central de interesses, que tem raízes fundas e comunicantes, tanto no PS como no PSD – sem esquecer o CDS que anda, sempre, à boleia.

Por outro lado, MC sublinhou a sua condição de independente quando, depois de derrotado nas urnas, recusou cargos que lhe foram oferecidos, que lhe franqueariam passadeiras para os tráficos de influência e voltou à sua profissão de professor (decisão que não é habitual no percurso dos jotas partidários), mantendo-se, no entanto, como vereador e líder da oposição (que há anos não se via em Sintra). Tenho muitas dúvidas que BH, em caso de derrota, ficasse como vereador, prescindindo de accionar a “cláusula de conforto”, com ligação directa ao “banco de sinecuras” do PS/PSD.

BH, com um percurso feito essencialmente na direita trauliteira – que ele não renega, colocando-se no extremo do pensamento da direita de valores e diálogo, como é o caso do prof. Adriano Moreira, ambos do CDS e, antes, da União Nacional fascista – foi, e vai ser colocado à cabeça de lista do PS, partido que, teoricamente, nada tem a ver com a ideologia do seu candidato; MC, se aparecer à cabeça do seu Movimento e se aceitar o apoio de partidos da sua área ideológica, não vende gato por lebre. É que, por mais sapos que engulam e contorcionismos verbais, e escritos, que tenham de fazer alguns verdadeiros socialistas – que os há no PS/Sintra, com mais ou menos facas espetadas nas costas -, uma coisa é comum aos dois candidatos: nenhum é ou defende o socialismo, sendo que o mais enfático na rejeição, é, suprema ironia, o actual Presidente. Quem não se lembra do célebre debate televiso com Mário Soares, onde naquele tom truculento que caracteriza a sua arrogância política, BH disse que “o socialismo é olhar para o passado”?

 

João de Mello Alvim

 

* “(…) Ao vincar a aplicação do princípio da recandidatura dos actuais presidentes de câmaras ou de juntas de freguesia nas eleições autárquicas do próximo ano, António Costa e a direcção dos socialistas pretendem impedir que se registem em concelhias ou em secções partidárias tentativas de derrube por “golpe de aparelho” aos autarcas que se encontram em funções”, António Costa na reunião da Comissão Nacional do PS, Público, 4 de Novembro 2016

** Ou à imposição da “nomenclatura” que o dirige actualmente que, em caso de vitória, terá direito a prebendas pelos seus bons-ofícios, mas também o terão em caso de derrota, à boleia dos “empenhos” de BH.

Um mês depois

Faz hoje um mês que, numa reunião pública da Câmara Municipal de Sintra, a uma declaração minha sobre a política cultural em Sintra, o actual Presidente da Câmara, espingardeou para tentar confundir o motivo central da intervenção (a política errática e economicista seguida por este Executivo), com um motivo da minha vida pessoal, assim como (disse ele) o insucesso da associação cultural do concelho que dirigi cerca de 30 anos e, cereja em cima do bolo, como não lhe admiti a incursão na minha vida pessoal, assim como a demagogia dos números e da argumentação(?), disse-me, mais ou menos, que se quisesse mais alguma coisa podíamos conversarmos lá fora.

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Não me admirei com a desbragada e descontextualizada resposta (?) desta (triste) figura formada na direita trauliteira (e, sabe-se bem porquê, à cabeça como” independente” de uma candidatura do PS), pois, sobre a mesma, bem se pode dizer que é mais composta de traje do que de modos. Provavelmente dei-lhe troco em demasia, e aí estive mal, pois deixei que me levasse para o seu jogo provocatório. E sobre o “conversar lá fora”, não faltará oportunidade de lhe perguntar,  cara a cara, o que foi que ele quis dizer.

Um mês depois, e para encerrar o assunto, o meu agradecimento a todos os que me apoiaram na decisão, difícil, que tomei. Muitos fizeram-no com posts no facebook; a maioria, no entanto, fê-lo pelo telefone ou através de sms´s e mensagens privadas, e eu percebo o uso deste último meio. Assim como fiquei a perceber melhor outros, através das suas insinuações torpes, ou do  seu silêncio ruidoso, ou amedrontado, ou cúmplice, não declarado, com a “performance” do Presidente.

Duas notas finais: 1 – Ao contrário da mentira propalada, a minha mudança de residência para fora do concelho de Sintra, foi uma consequência, não a causa para sair da direcção da associação a que presidi, e com a qual continuo a trabalhar, agora noutras funções; 2 – Liberto das amarras que a minha função anterior me aconselhavam, voltarei, em breve, à regularidade com publicações neste mesmo blog, “Três parágrafos” (filho da coluna semanal do Jornal de Sintra de há uns anos atrás, ainda não passava pela cabeça de ninguém que  Basílio Horta fosse eleito Presidente da Câmara de Sintra, numa lista do PS…).