A mentira como estratégia política, em Sintra

 

A recorrência, por sistema, à mentira por parte dos agentes políticos, é um contributo assassino para o descrédito da Política como actividade nobre e necessária, na gestão da vida das comunidades. Em nome de uma arvorada “flexibilidade táctica” diante problemas, uns decorrentes no natural dia-a-dia da governação, outros provocados para esconder falhanços ou incompetências, a mentira surge como uma prática cobarde, como um expediente para ganhar tempo ou manobra dilatórias, com o intuito de desviar o essencial das questões. Na base, para além do atropelo às mais elementares regras da convivência democrática, está a sobranceria pacóvia como aquilatam da inteligência dos cidadãos e da vivência transparente da Pólis.

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Em Sintra, e desafortunadamente não só em Sintra, esta prática é conferível comparando o que diz, escreve e faz, com o que se disse, escreveu e prometeu. Com um descaramento ostensivo, recorrendo a malabarismos retóricos, tentam descartar responsabilidades assumidas, apresentando-as como interpretações abusivas ou equívocas, neste caso quando o aperto para a manobra é menor. E se a desmontagem da falácia é feita, de forma clara, por A mais B, a sequência é a da cartilha: primeiro a hipocrisia de um suposto mal-entendido, que é sempre de quem ouviu nunca de quem disse, e, se não resultar, a máscara cai enquanto se sobe para o degrau da prepotência e da arrogância. Em Sintra, com mais facilidade atendendo à incubação política, nos valores, “indiscutíveis” da trilogia Deus, Pátria e Família, do actual Presidente. E há marcas políticas que, por mais liftings que sejam feitos, permanecem para sempre, contaminando a forma de estar na política e o exercício do Poder.

Diante desta injunção que nos querem impor como paradigma indubitável, três são as posições possíveis. Ou demitirmo-nos dos nossos direitos e deixamos de querer saber; ou, gradualmente, aceitarmos e moldarmo-nos passivamente ao, “eles é que sabem”, ou, então, reagimos na defesa dos nossos direitos constitucionais. Se as duas primeiras opções servem como uma luva os protagonistas da mentira e do quero-posso-e-mando, já o exercício do direito à indignação, é água em pedra-dura, em prol da transparência democrática e oposição cidadã à mentira e aos labirintos para onde nos querem empurrar, e fazer perder o rumo. É ainda impedir que a (de)formação congénita, se instale como modelo de governação, porque a democracia representativa é indissociável da democracia participativa.

 

 

João de Mello Alvim

Corrupção em Sintra?

As vagas de rumores sobre eventuais envolvimentos de agentes políticos nos corredores do compra-e-venda das influências, os chamados sinais exteriores de riqueza, assim como, praticamente, a inexistência de punições, criou uma imagem de que os políticos são, necessariamente, corruptos e, mais ainda, contribui para que a corrupção seja aceite de forma quase natural, ou seja, um eleito para um cargo público, mais cedo ou mais tarde “é natural” que ceda à máxima, “o poder corrompe”. As autarquias não são excepção, Sintra não está fora desta generalização.

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Em Sintra, quantas histórias sobre trajectórias duvidosas, não ouvimos acerca de A,B ou C; sobre os “senhores 10%”; sobre quem nunca se lhe conheceu uma profissão, quando iniciou a sua prática política, mas, materialmente falando, têm um percurso de vida ascendente apoiado no cartão partidário e aventais maçónicos ou paramentos da Opus-Dei? Uma mistura inclusiva que dá substância à casta do bloco central de interesses, que continua vivo e activo.

Se os partidos são os pilares da democracia -o que não pode excluir a existência de outras formas organizadas de participação na vida na polis -, os partidos são também, em grande parte, os responsáveis pela existência de cancros que minam a democracia, afastam os cidadãos do exercício dos seus direitos de cidadania e dão margem à generalização de que “os políticos são todos corruptos”. E são responsáveis, porque pactuam (por medo ou conveniência) com o nepotismo, o clientelismo, o tráfico de influências, a fraude e o enriquecimento ilícito. Porque incentivam a obediência ao(s) chefe(s) em vez da discussão política e, cada vez mais, são permissivos à entrada de “militantes”, sem qualquer filtro ideológico, para fortalecer sindicatos de voto que têm por único objectivo esmagar os opositores internos e ascender e consolidar o Poder.

Compete às organizações políticas que se revêm na democracia participativa, e não na democracia de fachada assente no clubismo e nos ciclos eleitorais, fazer a limpeza dos “estábulos de Augias”* . Compete aos cidadãos, através de estruturas (políticas, culturais, sociais, etc), ou individualmente, o combate a este abastardamento, sem, no entanto, cair na tentação de lançar labéus, mas denúncias sustentadas. De contrário, o efeito pode ser exactamente o inverso do pretendido. Colocar em causa o bom nome, até de quem votou contra a Constituição, pode gerar vitimizações e solidariedades (tão bem-vindas em pré-campanha), como está a acontecer com a “denúncia ou participação criminal” movida pelo Executivo, liderado por Basílio Horta, contra o cidadão Pedro Ladeira, pelos seus comentários, na minha opinião irónicos e sem base para processo criminal, publicados na página do Facebook do vereador Marco Almeida, a 19 de Setembro último.

 

 

João de Mello Alvim

 

*” Na mitologia grega, grandes estábulos do rei da Elida, Augias, que não foram limpos durante muitos anos e que foram limpos por Hércules num só dia. A expressão «estábulos de Augias» tornou-se sinónimo de acumulação de todo o tipo de imundície e lixo ou de estado de extremo

abandono e desordem”, in Diccionário Político https://www.marxists.org/portugues/dicionario/index.htm