O Bloco de Esquerda fiel da balança nas próximas autárquicas, em Sintra?

 

Conhecidas as candidaturas às próximas autárquicas e com todos os estúdios de opinião a indicar que nenhuma das listas obterá a maioria absoluta, será desta que o Bloco de Esquerda(BE) será o fiel da balança? Se em Sintra a basiliação do PS guinou este partido para o centro, a estratégia desde sempre seguida pela CDU pode provocar um sentimento de frustração e consequente vontade de mudança, junto dos eleitores não militantes, por verem, eleição após eleição, o seu voto apenas servir para negociar apoios a soluções governativas na qual não se revêm.

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O BE não é ainda um partido de implantação local. Falta-lhe a estratégia de um trabalho regular na comunidade, quadros e anos de labor para fazer parte e ter influência nos meios sociais, culturais e das várias expressões associativas. No entanto, este partido tem a vantagem de não estar comprometido com anos e anos de governação PS/PSD/CDS, ao contrário da CDU. Acresce que, sendo uma eleição local com todas as características que a diferenciam de uma eleição nacional, os últimos resultados para as legislativas, o trabalho dos seus deputados na Assembleia da República e os indicadores dados pelas sondagens, podem ser factores concorrentes para uma surpresa na noite de 1 de Outubro.

A personalidade política de Basílio Horta, o seu percurso, as suas ligações ao mundo dos negócios do “arco do poder”, assim como a sobranceria política do PCP em relação ao BE, fizeram abortar qualquer tentativa de “troca de impressões” construtivas. Uma “geringonça”, como possibilidade futura assente em vontade clara de apoios negociados pós-eleições e assumida publicamente pelos três partidos, não chegou sequer a sair da cabeça de alguns militantes dos três partidos, mais bem-intencionados e defensores do diálogo à esquerda. Fica assim, de um lado o que já se sabe por décadas e décadas de exercício do Poder, e do outro o voto num partido que nunca teve qualquer responsabilidade na governação de Sintra desde o 25 de Abril, não tem telhados de vidro e, como tal, poderá ser o fiel numa balança geralmente mal calibrada.

 

João de Mello Alvim

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A orfandade do centro-esquerda nas próximas autárquicas, em Sintra

No alinhamento das actuais candidaturas às autárquicas de Sintra, mesmo tendo em conta que são eleições locais, o factor decisório centrar-se-á na disputa dos habituais eleitores do centro-esquerda. Se à esquerda, à direita e ao centro-direita, há opções claras, uma grande franja de cidadãos, por convicções ideológicas, não se revê no panorama, podendo o “partido da abstenção”, para além de ser grande vencedor, juntamente com o chamado voto útil, influenciar o resultado final.

Fazer uma extrapolação dos resultados das últimas eleições legislativas no concelho(1), para as próximas autárquicas, é um erro político básico, agravado em Sintra pela existência de um Movimento, o dos Sintrenses com Marco Almeida(MSCM), onde o sentido de voto dos seus apoiantes, não foi canalizado para um só partido ou área ideológica, uns por convicção, outros ainda sob os efeitos do cisma no PSD/Sintra. O mesmo acontece com a miragem de que o efeito “geringonça” reverterá a favor do PS, e que pretende branquear que o actual Executivo é suportado por uma troika espúria em que entra o PSD-indefectível de Passos Coelho. Concorre ainda para limpar a miragem, o actual núcleo duro que dirige a Concelhia do PS que é conhecido por “arrebenta candidatos socialistas” (João Soares e Ana Gomes), e last but not the least, o percurso político do cabeça de lista, Basílio Horta, que foi essencialmente como militante da extrema-direita de onde herdou os tiques autoritários e a difícil convivência com as regras democráticas.

Esclarecidas estas questões, uma outra, e essencial, se coloca. Em que candidatura se reverão os eleitores do centro-esquerda? Suprimidas as hipóteses Bloco de Esquerda e CDU por se assumirem inequivocamente de esquerda, e a do PS por se apresentar travestida, a candidatura do independente Marco Almeida conseguirá atraí-los? Seria mais fácil dar crédito a esta hipótese se a referida candidatura conseguisse fazer um caminho mais transversal ideologicamente, e fosse para além do movimento do ex-militante do PS, Barbosa de Oliveira. Seria mais fácil a entrada na área do eleitorado do centro-esquerda, se, pelo menos um dos nomes chave da candidatura (cabeça para a Assembleia Municipal e Mandatário), fosse de gente de esquerda. Assim, um trabalho de formiga feito ao longo de quatro anos por parte dos aderentes do MSCM, onde há gente de várias ideologias, pode ser ofuscado por nomes de destaque na candidatura e conotados com a direita e o centro-direita. Além do mais, são dados de mão-beijada argumentos aos que dizem que a candidatura independente não o é tanto assim, pois teria sido negociada, e estará a ser condicionada por pactos com o PSD/CDS onde, do lado do MSCM, só Marco Almeida participa.

Pelo lado do PS/Basílio Horta, a situação não é a mais atraente para o habitual eleitor do centro-esquerda. Em vez da almejada mais-valia, o actual Presidente tem-se revelado um bico-de-obra, pelo falhanço nas negociações com a sua família política para condicionar o lançamento da candidatura de Marco Almeida, pela falta de empatia com os cidadãos, pelo desconhecimento da realidade concelhia, pelas entradas de leão e saídas de sendeiro, e pela mediocridade como decisor político. Por este resumo, em vez de alargar a base eleitoral ao centro e à esquerda, afunilou-a, por desgaste, em “pensamentos, palavras, obras e omissões”. Mesmo com a descarga de obras e projectos, que aqui mesmo previ e estão a inundar, e a entupir os órgãos de comunicação oficiais e oficiosos, dificilmente conseguirá inverter o caminho de desconfiança que provocou, mesmo no próprio núcleo duro da Concelhia onde a convivência conheceu melhores dias.

Concluindo, uma certeza, uma incerteza, e uma pergunta-reflexão que deixo aos leitores e poderá ser o mote provável para próximo artigo. A primeira está na actual orfandade do “centro-esquerda”, a segunda no desfecho das eleições autárquicas em Sintra, a terceira e última: se este quadro de orfandade não for alterado, para onde penderá o voto útil?

 

 

João de Mello Alvim

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A dessintonia entre partidos e movimentos cívicos, em Sintra

 

Um dos problemas capitais dos partidos, é o de não estarem, nem procurarem estar, sintonizados com os movimentos cívicos ou então insuflarem os seus próprios movimentos na ““abertura da caça ao voto”, para  melhor os controlarem e desactivarem “cumprida a missão”. São resquícios de anos e anos de falta de discussão política aberta e descomplexada que herdamos do antes do 25 de Abril, a que se somam os vícios claustrofóbicos e de formatação do pensamento e medos da perda de influência, que os aparelhos prescrevem e se certificam da sua aplicação.

Mas mais grave é quando, entidades organizadas de intervenção política eleitoral, que aparecem, ou dizem aparecer em ruptura com estas práticas herdeiras do “pensamento único e acção centralizada”, adoptam a mesma postura. Refiro-me nomeadamente aos movimentos independentes que se assumem como alternativas a anquilosadas práxis do exercício da política. Até podem inovar no sentido do organigrama interno, mas mantêm reservas para com iniciativas dos cidadãos que não sejam lançadas por militantes seus, independentemente das mesmas terem por objectivo a defesa do bem-estar das populações, e causas que dizem respeito a toda a comunidade. Os partidos e os movimentos de intervenção política eleitoral, não têm o monopólio da intervenção na Pólis, nem devem querer ter. Devem exercer as suas funções ditadas pela discussão interna (quando a há…), mas não podem encarar as actividades do movimento associativo, como marginais no pulsar da sociedade. É um erro político de palmatória, é uma limitação ideológica, é um encarar o cidadão apenas como eleitor, e negar-lhe os seus direitos de cidadania é, em última instância, uma atitude anti-democrática porque a democracia não esgota, nem pode esgotar-se, na acção dos partidos ou movimentos de cariz partidário.

Tudo isto a propósito da causa, em boa hora lançada e coordenada, pela Associação Alagamares, de contestação do polémico “e escandaloso abate de cerca de 1400 árvores no perímetro florestal da serra de Sintra em defesa”. Entre várias iniciativas, a Alagamares juntou, no passado dia 3 para um debate-ponto da situação, representantes da associação promotora e também, cito o comunicado resumo da reunião, “da Associação de Defesa do Património de Sintra, SintraPenaferrim, (Re)pensar Sintra, Sintra sem Herbicidas, Quercus, PAN, Bloco de Esquerda, PEV- Partido Ecologista Os Verdes, além de diversos cidadãos a título individual. Foram endereçados convites a todos os partidos políticos com representação parlamentar e municipal, bem como a diversas associações e personalidades, tendo comparecido os que puderam e quiseram”. Do espectro partidário estiveram então o PAN, o Bloco de Esquerda e os Verdes. E então o PS/Basílio Horta que dirige a autarquia e os “parceiros de acordo”, o PSD e a CDU? E o Movimento Sintrenses com Marco Almeida? Não estamos perante uma situação que exige a participação de todos os sintrenses, organizados, ou não, em partidos ou movimentos? E se há eleitos, com ou sem pelouros, que as estruturas partidárias  têm na Câmara, não seria uma altura ideal para os partilharem e esclarecer os presentes? Ou lá voltamos à dicotomia, castradora, de que “o que não é lançado, e controlado, por mim, é contra mim”?

 

João de Mello Alvim

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Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

Com o PS a inclinar para o cepo um cabeça de lista da direita dos negócios, e uma candidatura independente com apoios, essencialmente, de cento-direita, que escolha terá um eleitor de esquerda que não seja militante do PS*, do PCP nem do Bloco de Esquerda nas próximas eleições autárquicas, em Sintra?

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O cabeça de lista que o PS/Sintra (re)indicado para disputar a presidência da Câmara, pelo seu passado político e concepção muito própria do exercício do Poder Autárquico – contra o qual votou desfavoravelmente, na Constituinte -, macula a candidatura e afasta muitos socialistas, militantes ou simpatizantes. O seu desempenho destes quase quatro anos, demonstra um entendimento refratário à pluralidade de opiniões. Afasta, sistematicamente, os eleitos que não fazem parte do vigente acordo de governação de tomadas de decisões políticas, quando, pela importância das mesmas e reflexo na vida dos sintrenses, a sua inclusão é do mais elementar bom-senso. Do mesmo modo, tem demonstrado uma evidente falta de capacidade para executar uma governação planificada, assim como uma visão economicista da política, que se reflecte mais nos milhões das contas bancárias, do que no bem-estar da população*.

Por outro lado, já depois de lançada, a recandidatura do independente Marco Almeida(MA) teve o apoio da sua família ideológica e ainda de socialistas organizados num pequeno movimento, assim como de personalidades conhecidas pelas suas posições de esquerda, o que não chega para ser um movimento transversal. Alguns erros cometidos, como por exemplo, a escolha, precipitada, de Carmona Rodrigues para coordenador do programa, ou a “troca” de António Capucho por Ribeiro e Castro, contribuíram para criar desconfianças entre nos eleitores de esquerda indecisos. No entanto, a argúcia política que MA tem demonstrado, pode contribuir para clarificar que se trata de eleições autárquicas e não nacionais, e tornar inequívoca a demarcação com o “pafismo”. A abrangência e sensibilidade social do programa, a ser apresentado, e as expostas divisões dentro da esquerda, poderão contribuir para o alargamento da referida transversalidade.

No entanto, com estes dois candidatos, muitos eleitores de esquerda, mesmo tendo em atenção que se trata de eleições locais onde se destaca o perfil político do cabeça de lista, o seu conhecimento e relação efectiva e afectiva com o território, continuam “órfãos”, apesar da recentemente anunciada candidatura da CDU (Pedro Ventura) e do anúncio, para breve, do cabeça de lista do BE (uma surpresa?). Se o PCP aposta no mesmo candidato de 2013, sabendo à partida que a sua eleição como vereador está garantida, já da parte do BE, mesmo que seja anunciado um nome com créditos indiscutíveis em termos nacionais, o há muito diagnosticado frágil enraizamento deste partido no trabalho de base no concelhio, dificilmente contribuirá para alterar substancialmente os resultados. E, substancialmente, seria a eleição de um vereador, assim como o aumento da representação na Assembleia Municipal e nas Freguesias.

A questão que mais agudamente se coloca aos eleitores de esquerda não militantes (ou militantes com autonomia de pensamento e acção), do PS ao BE, é a de tentar perceber porque razão, neste quadro em que o PS oficial se auto-exclui com a indicação de um cabeça de lista da direita dos negócios, não é possível a CDU e o BE construírem, com base nos seus programas que em pouco se diferenciarão, uma alternativa de esquerda credível e exequível. Isto num concelho que, desde que há eleições, sempre foi governado ora pelo PSD, ora pelo PS, sendo que o CDS e a CDU raramente estiveram de fora… Ou será que este último facto é o elemento bloqueador de um acordo à esquerda? E se o é, não se está a tempo, e num tempo político, oportuno para o debater e ultrapassar? Não é importante que a esquerda esteja representada, autonomamente e com força política, na mesa dos vereadores eleitos? Ou será que desta incapacidade da esquerda se unir, vão sair os votos que determinarão a victória de um dos outros dois candidatos, Basílio Horta ou Marco Almeida? Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

João de Mello Alvim

 

 

*Ou mesmo sendo militante não se reveja nesta PS/Basílio Horta

** Isto já para não falar no ridículo de, nas raras presidências abertas, excluir os vereadores eleitos pelo Movimento Sintrenses com Marco Almeida, ou seja, a oposição.  Tem sido um exercício de mandato de um Presidente que nada tem a ver com os princípios fundadores do socialismo e, mais grave, não governou para todos os sintrenses – as Uniões de Freguesias cujos Executivos não são do PS/Basílio Horta, estarão em boas condições de confirmar ou desmentir o que escrevo.

Quao vadis esquerda em Sintra (edição em PDF)