Mais um auto-golo de Basílio Horta na sua recandidatura, a Sintra

 

A prestação de Basílio Horta (BH) no programa da Benfica TV foi, politicamente, patética. Colocado em frente ao anterior Presidente da Câmara, responsável, segundo Basílio e correlegionários, pelo “12 anos em que Sintra esteve abandonada”, o recandidato* indicado pelo PS/Sintra, elogiou os 12 anos de desempenho de Fernando Seara, e desejou ter os mesmos êxitos que o seu antecessor. Não apontou erros de gestão, engoliu em seco a afirmação, mordaz, de Seara quando este disse ter deixado o concelho com todas as condições para o novo Presidente fazer o que entendesse e, com a sua prestação, voltou a fazer corar de vergonha os socialistas sintrenses – porque os há, estão é em módulo de hibernação.

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Vi duas vezes o programa na íntegra, e para além de identificar uma nítida estratégia concertada antes do início da gravação, constatei que Basílio Horta mais uma vez provou ser, numa apreciação bondosa, um político inábil, cuja apregoada frontalidade política se esvanece diante das dificuldades, pois tinha uma oportunidade soberana, aos olhos da “nação benfiquista” para desmontar o que tem dito publicamente sobre o desgoverno e a inacção, do “careca do Benfica” quando este esteve à frente da Câmara de Sintra. Numa primeira parte, falou da sua carreira política, evidentemente narrada numa perspectiva branqueadora das suas ligações à União Nacional fascista e ao posicionamento da CDS do espectro partidário pós-25 de Abril, passando pela Constituinte** até à sua colagem à ala direita do PS, e indicação como candidato à Câmara de Sintra. Numa segunda fase, e perante a pergunta do moderador sobre como avaliava os mandatos de Fernando Seara (os famosos 12 anos em que nada foi feito, como reza o slogan e escrito está nas actas de reuniões, tanto do Executivo como da Assembleia Municipal), BH, recuou e não foi coerente com o discurso de três anos, dele e dos seus correlegionários. Que credibilidade pode ter um político como este, que diz uma coisa nas costas e outra na frente do seu antecessor?

Para espanto de quem se espanta com aquilo que alguns políticos entendem o que é a Política, BH disse:  ”O dr. Fernando Seara geriu Sintra no seu tempo, eu estou a gerir Sintra no meu tempo. A verdade é que um Presidente de Câmara que eleito por maioria absoluta por duas vezes, é porque tem mérito. Isto chega-me. Portanto, encontrei Sintra gerida pelo Dr. Fernando Seara que eleito por duas vezes por maioria absoluta, agora o que ele fez, e é uma coisa muito importante, foi não ter estragado Sintra de maneira nenhuma. Quando ele dá aquela orientação “já chega de betão!”, é uma orientação que salva muita coisa em Sintra. Muita coisa. Como é que eu podia gerir hoje se ele não tivesse feito isso na altura? Portanto há aqui uma continuidade nesse domínio e depois pois claro, cada um tem o seu estilo coloca o seu cunho pessoal a vida é outra, o país é outro, o ambiente é outro a realidade é outra e eu só espero ter o mesmo êxito que ele teve”. Não é preciso ser mosca, para imaginar a cara dos indefectíveis da actual gestação e dos propagandistas da cassete dos “12 anos sem obra”. Nunca o nome de um programa de TV – “Jogo limpo” – lhes devia ter causado tanta perplexidade.

Há tempos, neste mesmo espaço, escrevi que, face aos desaires protagonizados por BH na tentativa de bloquear o apoio do PSD e do CDS à candidatura do independente Marco Almeida, a estratégia do PS/Sintra iria mudar, centrando-se mais na catadupa de obras (em algumas freguesias…), e anúncios de projectos, mais dinheiro para apoios, visitas ministeriais, etc, do que nos “12 anos sem obra”. O que nunca pensei foi que este argumento fosse convertido, por Basílio Horta, no seu contrário, ou seja, em elogio. Isto numa televisão, em frente do principal responsável pela propagandeada inacção, o ex-presidente Fernando Seara.

Por parte deste, a atracção pelo jogo de sombras continua: convidou o “benfiquista ilustre” Basílio Horta, para o seu programa no Benfica TV; ouviu-o a tecer elogios ao seu desempenho de 12 anos e, mantendo um registo complacente, temperado por uma pitada-frase de efeito, nunca elogiou o trabalho em Sintra do seu sucessor e recandidato. Mexendo-se no mundo dos estúdios televisivos como peixe na água, Fernando Seara chamou a si a atenção da câmara (de filmar) número 1, para, num aparente mergulho de socorro, afundar ainda mais Basílio Horta com uma tirada, salgada: “O mais importante da vida é a força do mar e não a espuma das ondas”. Para este admirador de Maquiavel, a frase sibilina, não foi proferida ao acaso***. Caberá ao espectador, e especialmente ao eleitor, perceber e escolher “a força do mar” e/ou “a espuma das ondas”.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

*Que eu saiba, ainda não anunciada oficialmente. Devia ter sido o entusiasmo de estar na Benfica TV que o levou a assumir.

** Não o ouvi referir que votou contra Constituição que consagrava o Poder Autárquico.

***As conjecturas sobre as razões que levaram Fernando Seara a convidar Basílio Horta para o “Jogo limpo”, davam outra crónica.

 

Para ver o programa “Jogo limpo”, completo: http://sintranoticias.pt/2017/03/14/basilio-horta-fernando-seara-juntos-falam-sintra/

Ainda sobre a função do Antigo Casino

IMG_1910Já expressei que não partilho a visão do meu amigo João De Oliveira Cachado, quanto ao Sintra Museu de Arte Moderna – não por preconceitos artísticos, pelo contrário acho que muito palpite sobre a arte contemporânea é dado por iliteracia no que à mesma diz respeito, mas pela falta de dinâmica e consequente afirmação do projecto, que a estimável Maria Sousa Franco não conseguiu imprimir, e ainda pelo contrato, desproporcionado e em seu desfavor, que a Câmara assinou. Também não estava de acordo com a instalação da colecção do mestre Bartolomeu Cid no Antigo Casino, por não estar convencido que a instalação do espólio deste gravador de prestígio internacional, fosse a melhor opção na actual gestão dos espaços municipais, assim como na dinâmica da oferta artística na Estefânia. 

A solução MU.SA, como está, entendo-a como solução transitória. Ou seja, deslocar o acervo de obras plásticas e publicações da CMS para o antigo Casino, parece-me uma decisão acertada e adequada ao vazio que estava instalado, logo que essa deslocação assente numa estratégia mais ampla que vise abrir aquele belo edifício para as artes em geral, nomeadamente as performativas. Há espaço suficiente e salas para a exposição permanente, exposições temporárias, projecção de filmes (porque não Fernando Morais Gomes  ?), mas também para a realização regular de workshops de artes performativas, apresentação de espectáculos (há salas com pé direito suficiente para a instalação de teia, ao contrário do raquítico pé direito do Auditório Acácio Barreiros), oficinas de escrita criativa, residências artísticas e mesmo congressos, fora ou dentro (porque não?) da esfera artística.

Ou seja, o MU.SA não pode mumificar. Mas para isso as actividades extra exposição permanente (e têm acontecido algumas, de forma desgarrada) têm de ter espaços vocacionados para tal, planificação atempada (em articulação com os agentes culturais activos do concelho) e lançada, pelo menos, semestralmente, para criar regularidade da oferta. Mas a divulgação tem de fazer parte de todo este processo. Neste particular, chamo a atenção para um pormenor que não é, pois pode ser interpretado como um programa de actuação: o paquidérmico e periclitante telão, que sinaliza o MU.SA, impede que naquele espaço se divulguem actividades que estejam a decorrer. A divulgação é relegada para o site da CMS ou cartazes, alguns em A4, colocados na porta de acesso, longe do olhar do potencial público. A sinalização do MU.SA deve lá estar na frontaria do antigo casino, mas não impedir que, horizontal ou verticalmente – não ultrapassando a superfície do actual –a existência de um segundo telão onde sejam colocadas as outras actividades a promover. Isto potenciado por uma divulgação que não obrigue o meu amigo António Luís Lopes a um trabalho exaustivo, suponho, de pesquisa na net, para nos mostrar um “clipper” das realizações extra exposição permamente…

A dinamização do eixo cultural Vila/Estefânea (centrando nesta mais a oferta artística regular e variada) é uma velha discussão que arrefece com o passar do tempo, amancebada com o comodismo do deixa-andar. A vitalidade deste eixo, não vai tornar Sintra numa Viena, ou numa Copenhague, entre outras razões, porque não temos a tradição cultural secular destas duas cidades, nem os orçamentos destinados à cultura. Por formação, sou optimista, por estar muito escarmentado, sou um optimista/céptico. Por isso, comungo com o João Rodil , “dar tempo ao tempo para que (o MU.SA) encontre o seu caminho-, e quero acreditar que o MU.SA não nasceu para tapar um buraco, mas insere-se num esboço de estratégia para o transformar o Antigo Casino num espaço multi-funcional, no campo das artes, esboço esse que, para se substanciar em estratégia, irá em breve contar com a opinião dos agentes culturais activos do concelho e de personalidades de inquestionáveis méritos culturais.

Por outro lado, faço votos para que os agentes políticos não tenham medo de perder protagonismo, nem “o aparelho” camarário considere “uma chatice”, ou contumélia, ter de trabalhar articuladamente com estruturas ou criadores exteriores à Câmara. Esta articulação, que não vai beliscar a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, não pode ser encarada como concorrência, mas como convergência no mesmo desígnio de afirmar Sintra não só pela paisagem natural e edificada, mas pela implicação dos sintrenses e visitantes – a tal dinâmica que faltou ao Sintra Museu – na oferta artística variada, regular e alternativa aos “grandes”, mas efémeros “eventos”. Estes, que mordem a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, dão muita visibilidade ao promotor, juntam muitas pessoas, mas não lançam raízes para a formação e fixação de públicos informados e cultos.

Casino

Casino

No final do mandato, legal mas não ponderadamente, o anterior Executivo camarário assinou um protocolo para a instalação do espólio do gravador Bartolomeu Cid no Casino, edifício que já foi museu (sem se afirmar, diga-se, por falta de estratégia de quem o dirigia),primeiro espaço do Chão de Oliva (e onde nasceu a primeira companhia de teatro profissional de Sintra), escola preparatória e repartição de finanças, mas nunca casino.

Nada me move contra o artista – foi mesmo por indicação de um dos meus mestres, era então eu um jovem estudante de Belas-Artes, Ângelo de Sousa, a minha primeira referência na gravura -, mas não estou convencido que a instalação do espólio deste gravador de prestígio internacional, seja a melhor opção na actual gestão dos espaços municipais, assim como na dinâmica da oferta artística daquela zona da Estefânia.

Actualmente, Sintra precisa de um espaço de gestão partilhada, município/agentes culturais com provas de gestão e programação dadas, que permita a disponibilização de salas para conferências e congressos, assim como de salas para ensaios, apresentação de pequenos espectáculos de artes performativas e exposições de artes plásticas, prioritariamente destinadas aos jovens criadores. A articulação da oferta dos espaços instalados nesta zona, de que a Vila Alda não pode ser excluída, ajudará a potenciar a dinamização da oferta artística, na diversidade vertical e horizontal: em rede, intransigente com a vulgaridade e a mediocridade, mas sem preconceitos elitistas.

João de Mello Alvim