O bloco central dos negócios é quem mais ordena no turismo, em Sintra

A abertura, há dias, do pindérico “parque de estacionamento” na Portela, é paradigmático da forma como os responsáveis autárquicos remendam em vez de resolverem, não trabalham de forma planificada, e em função dos problemas centrais que afectam o município, porque estão mais preocupados em zelar por outros interesses que não os da população que os elegeu.

estrutura sobre azulejos Café Central

A mobilidade em Sintra e o caos automóvel instalado no casco histórico é um problema de agora, destes últimos quatro anos? Naturalmente que não é. Subsiste há muito tempo e foi agravado com o afluxo desregrado do turismo, atingindo níveis alarmantes nestes últimos anos. Não é um fenómeno que irrompeu espontaneamente. Como tal, em 2013 ele existia – claro que há responsabilidades políticas que se estendem muito além de 12 anos – e como tal faz(ia) parte dos compromissos expressos nos programas das candidaturas, nomeadamente da vencedora, pois não basta Sintra ser Património da Humanidade, tem de continuar a merecer. E pode continuar a merecer quando os decisores políticos são incapazes de desfazer um problema mais do que identificado, estudado, e que gerou páginas e páginas com pareceres técnicos para a sua resolução e que assumem em campanha que vão resolver?

A questão, por mais fanfarronice e de passa-culpas para enganar a opinião pública, é política e requer força política para enfrentar a miríade de lobbies ligados à “indústria do turismo” que sempre contaram, e contam, com a cumplicidade dos partidos do bloco central, PS/PSD e CDS. Uma intervenção que solucione os problemas da mobilidade no Centro Histórico de Sintra requer isenção, vontade de defender a qualidade do património e o bem-estar da população e visitantes. Não bluffs teleféricos, ou projectos pindéricos de remendo, como o “parque” da Portela ou o “deixa andar” invocando que “não se pode resolver tudo num mandato”. Mas quem pede para se resolver “tudo” num mandato? O que se pede é que se cumpra o escrito no programa eleitoral sufragado.

Exemplos para ilustrar o que digo não faltam em Sintra. Do cardápio, deixo aqui três à vossa reflexão: 1- O “Regulamento para transportes de índole e fruição turística no município de Sintra”, instrumento há muito pedido, que foi aprovado – este ano-, está a ser aplicado e monitorizado? 2 – Parque de estacionamento na Portela de Sintra, perto do Tribunal e da estação da CP, aprovado e construído em tempo record – este ano- , reúne as condições exigíveis a um Parque de Estacionamento digno do nome, ou foi um remendo pré-eleitoral já que a solução não passa só pelo parqueamento, mas pela articulação em rede com adequados transportes públicos? 3 – Estrutura do Café Central que na sua montagem danificou os azulejos da frontaria do Hotel Central (Património Protegido pela Unesco). A última vez que Fernando Castelo no seu blog “Retalhos de Sintra” (ver aqui ) alertou para este acto de lesa património, foi a 26 de Junho deste ano. Tinham decorrido 922 dias. Agora é só somar os quase mais dois meses passados.

Esta impunidade ao cumprimento da lei, não é eloquente do jogo e equilíbrio de forças e interesses que subterraneamente manobram o leme do bloco central dos negócios políticos?

 

João de Mello Alvim

Imagem, Fernando Castelo (suportes da estrutura do Café Central, montados sobre os azulejos do edifício).

Marco Almeida no (seu) labirinto

Uma derrota por escassos votos como independente, mais três anos de funcionamento do seu Movimento com dinâmica e oposição activa nos diversos órgãos autárquicos, nomeadamente na Câmara e na Assembleia Municipal – coisa que há muito não se via em Sintra; a necessidade de entrar no eleitorado urbano e ainda a pressão, em forma de tenaz, que os partidos que desde sempre governaram a autarquia, têm vindo a fazer sobre a projectada candidatura, empurraram/empurram Marco Almeida para um labirinto.

labirinto2

Depois da derrota em 2013, poucos foram os que apostavam na continuidade do Movimento Sintrenses com Marco Almeida (MSCMA). Perante a constatação do erro de prognóstico, movimentações do bloco central, PS/PSD, logo começaram tendo como ponta-de-lança um dos fundadores do CDS e actual presidente da Câmara, indicado pelo PS. A ideia era(é) isolar Marco Almeida, agitando o fantasma do “desvirtuamento do sistema democrático” com a erupção do “populismo” dos independentes e, ao mesmo tempo, subir a parada na distribuição de cargos e tráfico de influências, dentro da lógica de “casta partidária” que sempre tem funcionado em Sintra, e pelo país. A outra pinça da tenaz, é apertada pelo PSD, que jogava(joga)nos dois tabuleiros: no da “casta partidária”, a que sempre pertenceu, e na aproximação a Marco Almeida, apelando à sua área ideológica, já que um acordo com o candidato independente pode ser o único caminho para uma não derrota (para a contabilidade do PSD a nível nacional), e para o Poder. A fazer fé nas últimas notícias, a distrital do PSD aprovou “o apoio do partido à candidatura de Marco Almeida” à Câmara de Sintra, não sendo divulgadas as condições, o que pressupõe que a negociação ainda não está fechada, e que a tenaz continua a apertar.

Concorre para o labirinto o próprio Marco Almeida(MC), pois, se em 2013 o nome do seu Movimento foi agregador, em 2017 pode ser condicionar o voto, especialmente junto dos novos eleitores. Por outro lado, a forte implantação no meio rural do Movimento do antigo vice-Presidente, é inversamente proporcional à implantação no meio urbano (e, já agora, no cultural/urbano), sendo que este desequilíbrio poderia ser contrabalançado com o apoio do PSD. Mais: se a condição central para o apoio, for a de que MC seja o candidato indicado pelo PSD, passando assim de independente a dependente não filiado, qual será a reacção dos apoiantes que têm mantido a dinâmica do MSCMA?

Só uma grande argúcia e maturidade política, conseguirão suprir a ausência do fio Ariadne, para indicar a saída do labirinto em que Marco Almeida se encontra, mantendo a condição de independente.

 

 

 

João de Mello Alvim