Do, é ou não é hospital, ao hospital privado do Grupo Mello, em Sintra

Pólo hospitalar, agora Hospital de Proximidade, finalmente parece que Sintra vai ter uma unidade hospitalar dentro das várias categorias possíveis. E se ainda não é o equipamento que o concelho há anos precisa, não se pode deixar de saudar a assinatura do protocolo. Saudar e reflectir, tanto sobre a data do anúncio, como do destino dos milhões municipais e ainda sobre a coincidência de, para a semana, ser anunciado o projeto de construção de uma unidade Hospital privada no concelho, um investimento do Grupo Mello.

Não será preciso um exercício de grande perspicácia política para associar, entre outras razões já aqui expostas, o atraso do anúncio da recandidatura do actual presidente, à garantia por parte do governo da assinatura do protocolo em véspera das próximas eleições autárquicas. Amarrado ao princípio de recandidatar todos os presidentes em exercício, e pressionado pelo PS local, mesmo os mais renitentes membros da direcção nacional deste partido não tinham outra alternativa. E Basílio Horta(BH) conhecia este dilema muito bem. Por isso esticou a corda junto do governo PS, para tentar garantir aquela que poderá ser a sua primeira vitória eleitoral “sem espinhas” – toda a gente sabe que BH não ganhou as últimas autárquicas, já que as mesmas foram uma derrota do PSD devido à cisão concelhia ocorrida a meses das eleições e que ainda não cicatrizou completamente.

Não entrando na manobra de diversão “do, é ou não é Hospital”(1), sinalizo duas questões que penso necessitarem de maior reflexão. A primeira, que os partidos de esquerda em Sintra (PCP e BE) têm apontado, é o facto de o município ir suportar uma despesa que compete ao Estado e que o próprio Basílio Horta, há meses atrás, exigia que assim fosse. Ora, sabendo que o problema do Hospital para Sintra, e consequente sofrimento das populações, se arrasta há mandatos e mandatos de alternância entre o PS e o PSD, e conhecendo a proverbial arrogância política do actual presidente, só se entende esta marcha-atrás em escassos meses, como reflexo dos ajustes do “deve e haver” político que se elencam nos gabinetes à espera de “certificados de garantia”, seja para contribuir para a victória, seja para “conforto”, em caso de derrota. Por outro lado, é no mínimo intrigante a coincidência do Grupo Mello, que tão boas relações tem com determinado sector de “políticos da área dos negócios”, lançar, praticamente em simultâneo, o anúncio da construção de um hospital privado também em Sintra. Será que este interesse há muito conhecido por parte deste grupo económico pela doença, vem, por coincidência, colmatar as insuficiências do protocolizado hospital de proximidade? E com tal simultaneidade, não fica a ideia que o PS/Basílio Horta está, em várias frentes, a tratar da saúde aos munícipes? (2)

Poder-se-á dizer que não há fome que não traga fartura. Neste caso, porém, prefiro uma pequena alteração ao ditado: não há doença que não traga factura. A ver vamos.

 

 

João de Mello Alvim

 

 

(1)- A propósito, aconselho a leitura, despreconceituosa, do texto de André Beja, Enfermeiro, Investigador de Políticas de Saúde, Candidato do Bloco de Esquerda à Assembleia Municipal de Sintra.

http://www.esquerda.net/opiniao/hospital-de-proximidade-de-sintra-mais-duvidas-que-certezas/49438

 

(2) – A propósito, e dentro da defesa, não assumida, da estratégia do PS/Sintra, é elucidativo este artigo do Sintranotícias,

http://sintranoticias.pt/2017/07/01/grupo-mello-aposta-sintra-vai-construir-hospital-privado/

 

 

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Da confirmação do ditado popular, à jogada eleitoralista de Basílio Horta, em Sintra

 

Se é a saúde que está em causa, como não saudar o lançamento de concursos e o início da construção de renovados, ou novos, Centros de Saúde em Sintra? Mas o saudar e congratular com esta iniciativa, implica que se atribua, em exclusivo, os méritos ao PS/Basílio Horta? Naturalmente que não. Uma recessão deste malfadado processo, assim como o da construção do, já mítico, Hospital, implica responsabilidades, inoperâncias, meias-verdades e, muita falta de vontade política dos anteriores Executivos, tanto do PS como do PSD.

Novo Centro de Saúde Sintra

Identificadas há anos as carências do sistema de saúde em Sintra, tanto a nível dos Centros de Saúde como da ausência de um Hospital, o problema serviu para alimentar (uma das já clássicas) promessas eleitorais, transformou-se em arma de arremesso inter-partidário, e serviu para expandir os lucros económicos da rede de “saúde privada”. Tudo isto para desespero e incómodos de toda a ordem dos munícipes. E aqui não há inocentes, ou seja, tanto o PS como o PSD, e os outros partidos com quem se coligaram ou que aceitaram pelouros, não podem “sacudir a água do capote”. Se o PS/Basílio Horta aparece agora a reivindicar esta “obra”, como exemplo contrário ao dos “12 anos sem obra”, não só está a deturpar a realidade, como a tentar desresponsabilizar o PS neste processo.

Saudemos pois “a obra”, esperando, sinceramente, que o afã pré-eleitoral não venha a trazer problemas para outros resolverem, como é o caso do novo Centro de Saúde de Sintra, onde não me parece acautelado o sistema de acesso e estacionamento*, mas não deixemos branquear responsabilidades passadas. Assim como não deixemos de ter presente que estes novos Centros só servirão plenamente os cidadãos, se o Hospital de Sintra se transformar em realidade. E neste particular, como não sorrir à súbita magnanimidade de Basílio Horta quando este anuncia que, se for preciso, a Câmara custeia por inteiro a construção deste equipamento? Ou seja, coerente com a sua incoerência política, o actual Presidente, fundador do CDS e eleito, por indicação do PS, foi, adaptando o ditado popular, colocando a sua proverbial arrogância política entre as pernas e, em poucos meses (e já com mais de 70 milhões nos cofres dos bancos), passou da exigência e ameaça ao governo para que construísse o Hospital, do recuo de Hospital para Pólo Hospitalar, do contributo com a cedência dos terrenos e 20% do valor da construção, para o recente anúncio de que a Câmara pode pagar a totalidade da construção do novo Pólo Hospital*…Será esta uma jogada para convencer, internamente, os mais renitentes a apoiar a sua recandidatura? Ou é um dos trunfos que, neste mesmo blog referi, estão na manga para serem lançados ao ritmo da estratégia ditada pela campanha eleitoral?

 

João de Mello Alvim

 

 

 

*A construção do Centro de Saúde em Sintra, na Av. Desidério Cambournac, deixa adivinhar problemas com a fluidez do trânsito e com o estacionamento, já que o edifício fica “entalado”, entre a referida avenida e a linha do comboio (ver foto)

**http://www.cmjornal.pt/portugal/cidades/detalhe/camara-de-sintra-disponivel-para-pagar-novo-hospital

(Na foto, novo centro de Saúde de Sintra)

A mania da perseguição na política, em Sintra

O “Três Parágrafos” de hoje, não é da minha autoria. Encontrei-o no blogue Ataques de Pânico, e é assinado por Marta Reis. Penso que pode ser útil como reflexão, atendendo ao que se ouve, e lê, sobre a actual situação política em Sintra.

João de Mello Alvim

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“Mania” da perseguição

 

“Quando falamos em ”mania da perseguição” muitas vezes não é propiamente uma perseguição física, mas sim uma desconfiança em relação a tudo o que rodeia a pessoa.

Em termos psiquiátricos diz-se que as pessoas que sofrem desta perturbação têm uma Personalidade Paranóide. Este transtorno da personalidade pode ter vários graus, afetando a vida pessoal e profissional das pessoas mais ou menos consoante a gravidade. A principal característica das pessoas que sofrem deste transtorno é a suspeição e desconfiança em relação aos outros.  Normalmente estas pessoas sentem muito medo de serem humilhadas ou gozadas, então estão sempre alerta para o que se passa ao seu redor.

Algumas das caraterísticas que se podem observar em quem tem uma Personalidade Paranóide são: Desconfiança em relação a toda a gente (amigos, familiares, colegas de trabalho), pensando que todos têm intenções negativas no que fazem;(…) Humilhação constante, partindo do pressuposto que as ouras pessoas estão frequentemente a falar mal nas suas costas; (…)

Esta perturbação pode ter origem na infância da pessoa, devido a acontecimentos traumatizantes ou da necessidade precoce de lidar com situações hostis. A vida pessoal e profissional pode ser muito afetada por esta perturbação e por isso é necessário procurar tratamento o mais rapidamente possível. O diagnóstico por vezes é difícil pois esta perturbação pode surgir associada a outras patologias como a agorafobia, transtorno obsessivo-compulsivo ou mesmo esquizofrenia. Além de recorrer ao psiquiatra, o tratamento passa por diversas sessões de psicoterapia, de forma a moldar este traço específico da personalidade da pessoa, evitando que prejudique a sua vida”.

 

Marta Reis

blogue Ataques de Pânico

Artigo completo  https://ataquespanico.pt/mania-da-perseguicao/

O Hospital em Sintra continua em lista de espera

Os últimos desenvolvimentos sobre a construção do Pólo Hospitalar de Sintra, mantêm o diagnóstico de uma doença infecciosa crónica, identificada há mais de duas décadas. Num prolongado desrespeito pelo utente, as forças partidárias arremessam culpas entre si, como se houvesse inocentes entre as que exerceram o Poder em Sintra, nas últimas décadas. A agravar a infecção, tentam-se ganhos políticos em ano eleitoral. Entretanto o eleitor/utente continua a aguardar horas nas salas de atendimento, e dias, meses, anos nas listas de espera.

fotohospital-lista-de-espera

As versões que têm sido dadas para a reviravolta dos proprietários do terreno destinado ao Pólo Hospital, não podem deixar o cidadão perplexo, já que o que estará em causa é a alteração dos alvarás de um terreno inicialmente destinado a espaços verdes, para um espaço destinado à construção do referido Pólo Hospitalar, mantendo-se a função de equipamento público. Juntam-se a esta perplexidade, dúvidas legítimas: quais as razões que levaram os proprietários, através dos seus representantes legais, dar o dito por não dito, em tão pouco tempo, invocando como motivo, para a revogação da “declaração negocial” antes assinada, o se terem sentido pressionados para o fazer?; Conhecendo o conceito de diálogo em democracia do actual Presidente e a sua aversão em ser contrariado, teremos aqui mais um imbróglio provocado por Basílio Horta que está a ser pressionado pelo calendário eleitoral – leia-se aparelho do PS/Sintra?; Porque razão Marco Almeida fala em mais uma trapalhada de Basílio Horta, e não fundamenta a mesma?

Ao contrário do que li, a população de Sintra não anseia há muito por um Pólo Hospitar, mas sim por um Hospital. Mas também, como já escrevi, a possibilidade da construção do Pólo em Sintra, não deve ser rejeitada logo que implique uma política de articulação com “os Centros de Saúde, tendo em conta a sua localização geográfica (…) o apetrechamento humano e técnico dos mesmos, o núcleo de valências, em articulação com os serviços que só um Hospital pode prestar (…) Um pólo não é um hospital e este devia de ser, há décadas, um dos objectivos nucleares de qualquer boa governação para Sintra”(Três Parágrafos, de 20 de Novembro 2016). Nesta questão fulcral, a dos cuidados de saúde, mais do que procurar dividendos políticos é preciso a conjugação de esforços, para encontrar uma solução transitória que acrescente maior qualidade de vida aos sintrenses, sem deixar de ter como objectivo final a construção do Hospital de Sintra.

Quaisquer dividendos políticos que se queiram tirar desta situação, serão devidamente descontados pelos eleitores, que não entendem os zigue-zagues e as minudências desta discussão política, apenas sabem, por experiência própria ou próxima, o que sofrem – para além da dor que os leva a recorrer aos serviços hospitalares, a outra dor que têm de acumular com os tempos de espera e o caos nos serviços. Entrar nesta discussão sem argumentos sólidos, ou invocando o passado, para além de gerar cansaço e descrédito, conduz a uma armadilha que se pode virar contra quem eventualmente a montou, ou provocar danos políticos graves, a exigir hospitalização, em quem ela cair – o que não é nada desejável atendendo à falta de um Hospital em Sintra…

 

João de Mello Alvim

 

* Eu sei que, para além do temperamento, a formação política de Basílio Horta, por mais que a queiram enterrar, não espera pelo terceiro dia para ressuscitar e dificulta qualquer discussão democrática.