A (tentativa da) segunda morte da Maria João Fontaínhas, em Sintra

O relançamento do Prémio Nacional das Artes do Espectáculo, Maria João Fontaínhas (PNAEMJF), continua adiado a pretexto das mais variadas e descosidas razões, que pretendem esconder a razão principal. A iniciativa, bienal, tinha como objectivo dinamizar a escrita dramática e ainda guiões para a montagem de espectáculos na área das artes performativas. O adiamento consecutivo, para além de ser uma espécie de tentativa de segunda morte da actriz do Chão de Oliva, precocemente falecida, é paradigmático da actual política cultural dos “três cês”, imposta pela dupla ainda em funções, Basílio Horta/Rui Pereira(1).

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Há uns meses, escrevia neste mesmo espaço: “A decisão de congelar o PNAEMJF consubstancia a orientação política para a cultura da actual dupla Basílio Horta/Rui Pereira,  assente nos “três cês”: cortar ao máximo os apoios à actividade cultural, essencialmente à desenvolvida pelos agentes culturais. Esta prática rejeita Regulamentos (que possam imprimir transparência), previamente discutidos pela comunidade e aprovados por quem tem a decisão política, como foi prometido durante a campanha eleitoral, e deixa campo aberto ao livre arbítrio, ao controlo pelo “gosto artístico do vereador” e, eventualmente, às suas simpatias pessoais. É que, se para Basílio Horta a Maria João não lhe diz nada, como não lhe diz nada a história e a variada actividade cultural sintrense, já Rui Pereira, é praticamente da mesma geração da Maria João e, quem a conhecia, sabe que não era mulher para reverências aos transitórios do Poder. Será que a Maria João Fontaínhas está a pagar pelo fez ou, pior, pelo que não fez, segundo as bitolas desta “comissão liquidatária”?( 1).

O artigo tinha sido escrito na sequência de uma sugestão apresentada por um membro( do PSD) na Assembleia da União de Freguesias de Sintra, no sentido do Executivo da União pensar na possibilidade de chamar a si o relançamento do Prémio. Sugestão bem acolhida por todas as representações, à excepção da do PS que se manteve em silêncio, em obediência ao chefe, o Presidente da Concelhia, Rui Pereira. Eventualmente recados e avisos, embrulhados nas habituais mentiras, foram enviados. O facto é que, a caminho do final do mandato, o PNAEMJF continua bloqueado(2).

Um senhor que foi ministro do PS e posteriormente administrador da empresa Teixeira Duarte, dizia, na sua habitual verborreia que, “quem se mete com o PS leva!”.  Em Sintra, o núcleo duro deste partido, com a cumplicidade silenciosa de muitos militantes, a frase deste “intelectual” de uma das alas mais trauliteiras da direita do PS, faz escola. Como tal, se for preciso que a Maria João Fontaínhas “morra uma segunda vez”, pois que morra. Quem a mandou ser irreverente, expressar as suas discordâncias, fosse ele Vereador ou Chefe de Departamento, e pertencer à associação cultural que, pela sua independência, esteve sempre sob-mira? Um pequeno detalhe: daqui a uns anos, ninguém se lembrará do nome do actual Presidente da Concelhia do PS. O contrário não acontecerá com a Maria João Fontaínhas que, pelo seu trabalho na comunidade, em particular na área cultural, será lembrada como a primeira actriz formada em Sintra e que em Sintra desenvolveu o seu trabalho, na primeira Companhia de Teatro profissional. O nome dela na futura sala da ampliada Casa de Teatro de Sintra, malgrado a persistente obstrução da dupla Basílio Horta/Rui Pereira, isso mesmo perpetuará.

 

 

João de Mello Alvim  #  blog Três Parágrafos

https://tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com

 

 

 

(1)- https://tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com/2017/01/08/a-politica-cultural-dos-tres-ces-em-sintra/

 

(2)- Pelas minhas contas, este Prémio o máximo que custou à CMSintra foi 6 000 euros, somando o prémio monetário e pagamento ao elemento convidado para o Júri – os restantes elementos, designados pela autarquia e pelo Chão de Oliva, não eram pagos A última edição(2012), que não teve vencedores, custou zero euros (zero).

Anúncios

A preocupante massificação turística, em Sintra

 

 

 

O turismo em Sintra, que pela sua riqueza paisagística e edificada lhe valeu a justa classificação de Património Mundial, na categoria de Paisagem Cultural, não pode ser tratado tendo em vista apenas o aumento do número de visitantes e os consequentes lucros financeiros. Ou seja, não se pode falar, e reflectir, sobre o turismo em Sintra, numa perspectiva puramente economicista, repetindo os erros que foram cometidos noutras regiões do país nos anos 80, onde em nome do paraíso se permitiu a construção de infernos mimetizados. Tanto seria um erro não aproveitar as características únicas e diferenciadoras do concelho, especialmente da sua zona histórica, como é um erro continuar a permitir um turismo massificador, um turismo predador que, tal 11ª praga do Egipto, está a tornar-se numa calamidade.

turismo-predador

(Foto Fernando Castelo)

 

Sem a pretensão de nesta crónica, abordar as várias vertentes do problema, elegeria apenas três aspectos que me parecem importantes, se não mesmo basilares. Refiro-me às acessibilidades, à mobilidade e ao despovoamento da zona histórica e Estefânea*. Em relação à primeira são conhecidos os estrangulamentos provocados por uma permissividade, cúmplice, do acesso automóvel ao Centro, às cercanias dos monumentos, até no cruzamento pela Serra. A concretização dos mil vezes prometidos parques de estacionamento, nas entradas de Sintra, com a função de filtrar a afluência motorizada, passam de Executivo para Executivo. Os parquímetros sempre vão facturando, e a instalação dos parques implicava, por exemplo, uma articulada e eficaz rede de minibuses não poluentes, nem ruidosos que, como serviço público, provavelmente não davam lucro financeiro, mas com o qual lucravam, em qualidade, visitantes e moradores. Como consequência imediata desta promessa nunca cumprida – que faz parte das clássicas em tempos eleitorais -, a circulação de automóveis e transportes “turísticos” no casco histórico, é histérica, agredindo e poluindo, no sentido literal, pessoas e paisagem e dando um toque muito original à “marca”, Sintra Capital do Romantismo…

 

Por fim, se não é o mais dramático é muito, muito preocupante o galopante despovoamento do Centro Histórico e da Estefânea. Ou porque se sentem agredidos no seu direito à privacidade, ao sossego e vida normal e bem-estar (chegar a casa, ir às compras, estacionar, etc), os moradores vão saindo, resistindo os mais velhos por ausência de opções ou por recusa ao desenraizamento. Então, onde moravam famílias durante vidas, nascem “unidades hoteleiras” sob toda uma série de heterónimos, destinadas ao aluguer sazonal. A alegada falta de camas, tudo justifica e o fenómeno alastra a uma velocidade vertiginosa, suponho que devidamente legalizado e com receitas, municipais e particulares, asseguradas. Nesta escalada irracional, louvam-se os milhões de visitantes, os rankings manhosos e esquecessem-se as pessoas e as suas raízes. Qualquer dia, os poucos moradores fazem de figurantes para a fotografia ou, na falta deles, contratam-se substitutos através daquelas agências que organizam as assistências, em alguns programas televisivos.

 

Não vou cair no ridículo de dizer que a culpa é deste Executivo, porque estava a fazer a mesma, triste, figura dos que remetem todas as responsabilidades pelo que não foi feito, para os 12 anos anteriores. A questão é política, ou da ausência de uma política articulada – como está a ser aplicada em várias cidades europeias -, intransigente às pressões tentaculares dos agentes turísticos, particulares e públicos, que saiba retirar partido dos recursos que a natureza e o passado nos legaram, sem destruir esses mesmos recursos nem expulsar as pessoas do seu meio, gerando assim num “não lugar” – no sentido em que são lugares de passagem e desprovidos de vida  enraizada, quando podiam ser de convivência entre paisagem, moradores e visitantes.

 

João de Mello Alvim

 

 

 

* Como João de Oliveira Cachado, Fernando Castelo, Fernando Morais Gomes e muitos outros, vêm sistematicamente alertando há anos.

 

 

 

 

A Maria Almira faz parte do Património Cultural de Sintra

Faz, no próximo dia 18, um ano de silêncio sobre a morte, física, da Maria Almira Medina. Palavras sentidas e outras de ocasião, foram proferidas, mas acções concretas para preservar a memória tangível desta sintrense adoptiva, perderam-se nos labirintos das intenções. Se não se pode atribuir a responsabilidade ao Executivo em funções, este não está isento pela ausência de uma estruturada política cultural que vá além da árvore das patacas do turismo, do entretenimento, enfim da política dos três cês: cortar, controlar e condicionar.

maria-almira(Maria Almira Medina em 2008, junto do Chalet da Condessa, numa acção em defesa da sua recuperação)

 

Não é minha intenção falar sobre a Mulher nem sobre a criadora multifacetada que marcou a vida social e cultural em Sintra durante décadas e décadas. Outros já o fizeram, e bem, chamando a atenção para essas marcas que ultrapassavam a geografia sintrense. As suas relações com o movimento surrealista, neo-realista e desalinhados, a produção poética e de artista plástica, a sua intervenção política e cívica proporcionaram-lhe todas as condições para a afirmação no panorama da cultura nacional. Mas a irrequieta, a indomável e, por vezes, teimosamente irritante Maria Almira, optou por Sintra e em Sintra ergueu o grosso da sua obra.

De todo este labor, muitos foram os privilegiados que dele comungaram – reivindico o meu quinhão muitas vezes ganho à custa de fortes discussões que tanto eclodiam como passavam, como trovoadas de Maio. Mas quem mais ganhou foi Sintra por contar, entre os seus, com uma personalidade tão marcante, com uma obra cívica e artística, tão variada. A Maria Almira fazia/faz parte do Património Cultural de Sintra, do património cultural edificado, não em pedra, mas em acções, palavras, telas, papel, tapeçarias e sei lá que mais.

Depois de um ano de silêncio, se a memória intangível perdura, grande parte da memória tangível está encaixotada num armazém de um amigo da família, em Fação. Desafinações familiares criaram este impasse, a passividade do Executivo alimenta-o. Naturalmente que não se pode imputar a responsabilidade a este último pois, a vontade e acerto de vontades na família, está a ser um factor bloqueador. Nem também defendo que cada personalidade marcante da vida sintrense, que deixe um espólio variado e único, tenha a sua casa-museu, a não ser, como acontece, com espaços que anteriormente serviam de residência – lembro-me do Mestre Anjos Teixeira, de Leal da Câmara e aceito a excepção de Ferreira de Castro. Mas uma política cultural concebida como bem necessário para o desenvolvimento da comunidade, e, como tal, que não seja decidida pelo deve-e-haver das finanças (como é a política dos “três cês”, implementada pela actual “comissão liquidatária”, Basílio Horta/Rui Pereira), devia mediar, situações de impasse como a do espólio de Maria Almira Medina, e accionar e dinamizar uma Casa-Museu de Vidas (há tantos espaços camarários, desaproveitados ou sub-aproveitados por esse concelho fora) para acolher espólios raros como o da Maria Almira ou do poeta Ruy Belo – que também tem parte encaixotada na sua antiga casa em Monte- Abraão.

 

João de Mello Alvim

Foto de Pedro Macieira

A política cultural dos “três cês”, em Sintra

 

O congelamento do Prémio Nacional de Artes do Espectáculo Maria João Fontaínhas (PNAEMJF), resume o estado errático, economicista e prepotente, da actual política cultural em Sintra. Que me lembre, só recuando ao início dos anos 90, ao mandato de Rui Silva, é que encontro paralelo com este panorama nebuloso e tenebroso. A diferença é que, na altura, a iniciativa cultural era, essencialmente, municipal e agora a oferta dos agentes privados cresceu de forma substancial*. Mas o objectivo de municipalizar a cultura é o mesmo. Estamos na presença de decisões de uma espécie de “comissão liquidatária” que se rege pela directiva dos “três cês”.

premione

O prémio, com o nome de uma das primeiras actrizes profissionais que se formou e exerceu a sua profissão em Sintra – onde precocemente veio a falecer -, foi lançado por iniciativa do Chão de Oliva em colaboração com Câmara local. Destinava-se a incentivar o aparecimento de novas peças de teatro e marionetas, assim como guiões para dança, espectáculos musicais e performances. Para além da atribuição de um valor monetário ao vencedor (da responsabilidade da CMS, que tinha um elemento presente no Júri)**, a proposta escolhida tinha de ser concretizada em palco por um dos grupos da associação co-promotora, ou então produzida por esta associação – caso da proposta saísse do âmbito do teatro ou marionetas.

A decisão de congelar o PNAEMJF consubstancia a orientação política para a cultura da actual dupla Basílio Horta/Rui Pereira assente nos “três cês”: cortar ao máximo os apoios à actividade cultural, essencialmente à desenvolvida pelos agentes culturais. Esta prática rejeita regulamentos (que possam imprimir transparência), previamente discutidos pela comunidade e aprovados por quem tem a decisão política, como foi prometido durante a campanha eleitoral***, e deixa campo aberto ao livre arbítrio, ao controlo pelo “gosto artístico do vereador” e, eventualmente, às suas simpatias pessoais. É que se para Basílio Horta a Maria João não lhe diz nada, como não lhe diz nada a história e a variada actividade cultural sintrense****, já Rui Pereira, é praticamente da mesma geração da Maria João e, quem a conhecia, sabe que não era mulher para reverências aos transitórios do Poder. Será que a Maria João Fontaínhas está a pagar pelo fez ou, pior, pelo que não fez segundo as bitolas desta “comissão liquidatária”?

Os cortes e o controlo, condicionam (o terceiro cê) o trabalho dos agentes culturais. Condicionam em afirmação, crescimento e sustentabilidade um serviço público que leva anos e anos a construir. Neste quadro, é de saudar o bom acolhimento da Assembleia da União de Freguesias de Sintra de uma proposta, no sentido de esta autarquia tomar como sua a iniciativa de relançar o Prémio. Naturalmente que os representantes do PS, alinhados com o chefe da concelhia, o vereador Rui Pereira (quem tem cargo, tem medo), não aplaudiram a proposta. Como escreve Dostoievski, in “Crime e castigo”, “(…) no meio disto tudo, o que é mais odioso? Não é estarem a errar, os erros são sempre desculpáveis, têm de existir, porque são os erros que levam à verdade. O que é realmente odioso é estarem em erro e, ainda por cima, venerarem os próprios erros.”

 

 

João de Mello Alvim  #  blog Três Parágrafos

siga e comente o blog no endereço:   https://tresparagrafossegundaedicao.wordpress.com

 

 

* Não dando conta  de que estão a dar tiros no pé, alguns políticos, desde os que sempre viveram do erário público e assim se tornaram “pesos-pesados”, da intriga e do  património pessoal acumulado, até aos decorativos, “senha-de-presença- dependentes”, designam estes agentes culturais como subsídio-dependentes. A este tema voltarei.

**Pelas minhas contas este Prémio, o máximo que custou à CMSintra foi 6 000 euros, somando o prémio monetário e pagamento ao elemento convidado para o Júri – os restantes elementos, designados pela autarquia e pelo Chão de Oliva, não eram pagos A última edição(2012), que não teve vencedores, custou zero euros (zero). A edição do PNAPMJF, era bienal.

***Mão amiga assegura-me que existe a gravação integral do debate sobre cultura realizado na Casa de Teatro de Sintra, em vésperas das eleições de 2013 e onde, tudo o que foi dito pelo candidato Rui Pereira, é desmentido pela prática do eleito Rui Pereira…

**** Só lhe interessa os grandes nomes da criação artística mundial que ele, como prometeu, tem trazido, regularmente, a Sintra…Em três anos, não veio um! É obra!

Um mês depois

Faz hoje um mês que, numa reunião pública da Câmara Municipal de Sintra, a uma declaração minha sobre a política cultural em Sintra, o actual Presidente da Câmara, espingardeou para tentar confundir o motivo central da intervenção (a política errática e economicista seguida por este Executivo), com um motivo da minha vida pessoal, assim como (disse ele) o insucesso da associação cultural do concelho que dirigi cerca de 30 anos e, cereja em cima do bolo, como não lhe admiti a incursão na minha vida pessoal, assim como a demagogia dos números e da argumentação(?), disse-me, mais ou menos, que se quisesse mais alguma coisa podíamos conversarmos lá fora.

face

Não me admirei com a desbragada e descontextualizada resposta (?) desta (triste) figura formada na direita trauliteira (e, sabe-se bem porquê, à cabeça como” independente” de uma candidatura do PS), pois, sobre a mesma, bem se pode dizer que é mais composta de traje do que de modos. Provavelmente dei-lhe troco em demasia, e aí estive mal, pois deixei que me levasse para o seu jogo provocatório. E sobre o “conversar lá fora”, não faltará oportunidade de lhe perguntar,  cara a cara, o que foi que ele quis dizer.

Um mês depois, e para encerrar o assunto, o meu agradecimento a todos os que me apoiaram na decisão, difícil, que tomei. Muitos fizeram-no com posts no facebook; a maioria, no entanto, fê-lo pelo telefone ou através de sms´s e mensagens privadas, e eu percebo o uso deste último meio. Assim como fiquei a perceber melhor outros, através das suas insinuações torpes, ou do  seu silêncio ruidoso, ou amedrontado, ou cúmplice, não declarado, com a “performance” do Presidente.

Duas notas finais: 1 – Ao contrário da mentira propalada, a minha mudança de residência para fora do concelho de Sintra, foi uma consequência, não a causa para sair da direcção da associação a que presidi, e com a qual continuo a trabalhar, agora noutras funções; 2 – Liberto das amarras que a minha função anterior me aconselhavam, voltarei, em breve, à regularidade com publicações neste mesmo blog, “Três parágrafos” (filho da coluna semanal do Jornal de Sintra de há uns anos atrás, ainda não passava pela cabeça de ninguém que  Basílio Horta fosse eleito Presidente da Câmara de Sintra, numa lista do PS…).

Da prosápia merceeira,oportunista e ignorante

Hoje a Compª de Teatro de Sintra estreia a sua 73ª produção. O texto não é de um qualquer obscuro autor, mas de um incontornável mestre do teatro do séc. XX, Tennessee Williams, e assina a encenação (a adaptação e tradução) não um nome qualquer, mas uma especialista da obra do mestre, a Graça P. Corrêa. O Chão de Oliva (CO), aqui através de uma das suas estruturas criativas, a Compª de Teatro, dá assim mais um passo na afirmação de um percurso artístico que para o ano somará 30 anos ao serviço da comunidade.

Por esta e outras razões, é-me penoso ver o CO andar, constantemente, com o coração nas mãos, obrigado à via-sacra dos pedidos, a insistir, a ser tratado como concorrente pelas castas instaladas, a ser tratado como subsídio-dependente, a obter apoios que partem de preâmbulos do género: “isto é para o teatro, coitados, se não dermos eles desaparecem”. Isto dito por “personalidades” que vivem à babujem erário público.

Não falo em tratamento de excepção, mas adequado. O Chão de Oliva faz um trabalho de utilidade pública em várias áreas, tem direito a ter apoio oficial (que na maioria dos casos é substancialmente inferior ao gasto directamente pelas mesmas entidades oficiais, num só “evento de acender e a apagar”, do qual só fica um efémero rasto). A associação, juntamente com outras estruturas particulares, contribui com cerca de 80% da oferta anual artística (criativa e formativa) em Sintra. Como tal merecia mais respeito, carinho e estímulo por parte dos poderes. E não faço generalizações, sei quem entende, reconhece e estimula este trabalho, como sei quem, ou por pedantismo, ou com medo (ridículo) de perder protagonismo, ou porque não gosta de mim, ignora a importância de ter instalado no concelho, entre outras, uma associação com o historial e o prestígio do Chão de Oliva.

Pessoalmente estou a atingir o limite. Estou farto de aturar enfatuados paraquedistas que, por percursos ínvios (mas essencialmente tendo em conta os seus objectivos pessoais), à custa de cartões partidários, ou encostados aos mesmos, se arrogam o direito de, como eles dizem, “abrir e fechar torneiras”. Puta que os pariu!

Podem parar o crescimento do CO ou mesmo contribuir para o seu definhamento. Duas coisas essas cabecinhas formatadas não vão nunca conseguir: apagar o historial do grupo, a sua importância na potenciação do movimento artístico em Sintra; a segunda é que não me vão esmagar, porque já enriqueci à custa dos subsídios dados ao Chão de Oliva! Vivo numa casa alugada, tenho dois carros (um de 1990), cerca de três mil livros, uma mulher, uma filha dois netos (um já cá, outro a chegar), e um cão. E, acima de tudo, tenho a consciência tranquila.

(ESTE TEXTO FOI ESCRITO NA QUALIDADE DE CIDADÃO E NÃO DE PRESIDENTE DO CO)

“Os filhos da Lua”, foto (de ensaio) de António Bagorro
Filhos da lua 1

“O Som e Fúria”, pelo Teatromosca

SOM

Quando vou ver uma obra que nasceu a partir de outra, não me interessa se a última segue a primeira. Exemplo: se vou ver um espectáculo de teatro construído a partir de um livro, separo peça do livro: são objectos distintos, construídos com códigos autónomos e com características diferenciadas. Fujo da mimese, procuro, no que estou a ver, a comunicação que me toca, que me sensibiliza, me faz, ou não, pensar e agir pensadamente.

Na minha opinião, a montagem de um objecto artístico implica a injunção entre concepção e a construção, do que será público. No teatro, por exemplo, pode ser perceptível uma concepção irradiante, mas o que o se vê, a construção, ser disfuncional com a concepção.

Como na literatura, posso ter uma grande história, narrativa ou não, na cabeça mas, se não sei usar os instrumentos da escrita, não posso aspirar a dar a conhecer uma obra homogénea e potente. No teatro, se não tenho actores para corporizarem a minha concepção, devo procurar o equilíbrio entre a ideia inicial e a que aparecerá em palco, porque essa é que interpelante. E, já agora, também me devo questionar, se tenho a maturidade artística/técnica para o domínio dos meios que a minha concepção implica.

Mais do que nunca, e espero que sempre, sinto um fascínio muito grande por quem procura a ruptura, o não comodismo, o risco, logo que numa lógica de percurso em que o tempo é o burilador. Posso, depois de acabar de ler um livro, ver um filme ou um espectáculo, não vir de alma cheia, mas quero vir a pensar fora de qualquer espécie de carris condicionadores, e fazer votos para que os criadores voltem ao trabalho e a novas propostas.

Tudo isto a propósito de ontem ter visto “O Som e Fúria”, pelo Teatromosca (dirigido por Pedro Alves, Mário Trigo e Carlos Arroja), que, para vergonha nossa como sintrenses, continua sem ter uma sala própria para trabalhar e apresentar programação – como provou que tem capacidade, nos poucos meses que esteve no desaproveitado Auditório Municipal António Silva.