A democracia continua por cumprir no debate sobre as autárquicas, em Sintra

 

O afastamento dos cidadãos da intervenção cívica, em vez de ser uma preocupação dos agentes políticos, parece ser um dos objectivos a atingir pelos mesmos. O resultado, na linha de décadas e décadas em que essa intervenção era proibida, é um afastamento acentuado da intervenção na vida da polis ou um envolvimento em que o pensamento, a argumentação e a tolerância, são substituídas pelo clubismo regido por claques acéfalas. O “debate” nas redes sociais a propósito das próximas eleições autárquicas é a este propósito elucidativo.

esgotos

A lógica dos partidos instalados que arquitectaram e manobram o sistema, com honrosas e recentes excepções que  confirmam a regra. É uma lógica que se concentra nos jogos de poder, na construção de carreiras, na relação estreita com os interesses económicos e no domínio de uma casta que se auto-proclama, com mais ou menos pudor, como garante da democracia. O estímulo ao envolvimento cidadão, para além dos beijos-e-abraços-almoços-e- brindes durante a campanha, é praticamente nulo. Querem confinar a democracia ao acto de votar. Iniciativas que promovam, sem condicionar, o envolvimento crítico dos cidadãos, vão sendo adiadas até às próximas eleições. Mesmo direitos elementares como a participação do público nas reuniões de Câmara ou Assembleias Municipais, são toleradas por regulamentos-espartilho e despachadas sem direito ao contraditório. Os eventos de iniciativa municipal, para os quais não falta orçamento, confundem cultura com animação cultural, e são avaliados, não pelo que deixam na formação das pessoas, mas pelo número de pessoas presentes. Está-se no domínio do barulho das luzes, da espuma dos dias, dos shares, como nas televisões, com os resultados de acefalia que se conhecem.

Tudo isto também tem expressão no “debate” sobre as autárquicas que se lê nas redes sociais. Debate ao roçar a indigência, onde o clubismo é quem mais ordena sob a batuta de claques organizadas que se insultam copiosamente e apenas defendem os seus candidatos – mesmo nos actos mais indefensáveis – à espera da recompensa pós-eleitoral. E quando se tenta uma troca de argumentos civilizada e democrática, os “donos do sistema”, respondem com o silêncio ou com a sobranceria. Pedindo de empréstimo a feliz imagem de um amigo de longa data, a exemplo das praias, deviam ser içadas bandeiras em cada “página de discussão”, para o leitor saber onde procurar uma de bandeira azul e fugir das praias-cloacas.

 

João de Mello Alvim 

 

NOTA: COM ESTE ARTIGO, O “TRÊS PARÁGRAFOS- segunda edição”, ENTRA EM MÓDULO DE PAUSA ATÉ, PELO MENOS, AO DIA 1 DE OUTUBRO.

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Um pensamento sobre “A democracia continua por cumprir no debate sobre as autárquicas, em Sintra

  1. Estimado João de Mello Alvim, a sua decisão de “entrar em modo de pausa (…) não ajuda à indispensável – porque é indispensável – clareza sobre o que se passa na nossa vida local. O silêncio ajuda ao parasitismo endógeno, ao doutorismo de quem, sem o ser, possa alegar que A ou B por o não serem, devem ser excluídos pesem as suas qualidades na vida.

    A sua decisão, meu caro, dá mais algum sossego para que se tente a indigência, deixando de a roçar para a tornar apelativa.

    Deixo-lhe esta preocupação, talvez a possa rever.

    Um abraço

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