Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

Com o PS a inclinar para o cepo um cabeça de lista da direita dos negócios, e uma candidatura independente com apoios, essencialmente, de cento-direita, que escolha terá um eleitor de esquerda que não seja militante do PS*, do PCP nem do Bloco de Esquerda nas próximas eleições autárquicas, em Sintra?

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O cabeça de lista que o PS/Sintra (re)indicado para disputar a presidência da Câmara, pelo seu passado político e concepção muito própria do exercício do Poder Autárquico – contra o qual votou desfavoravelmente, na Constituinte -, macula a candidatura e afasta muitos socialistas, militantes ou simpatizantes. O seu desempenho destes quase quatro anos, demonstra um entendimento refratário à pluralidade de opiniões. Afasta, sistematicamente, os eleitos que não fazem parte do vigente acordo de governação de tomadas de decisões políticas, quando, pela importância das mesmas e reflexo na vida dos sintrenses, a sua inclusão é do mais elementar bom-senso. Do mesmo modo, tem demonstrado uma evidente falta de capacidade para executar uma governação planificada, assim como uma visão economicista da política, que se reflecte mais nos milhões das contas bancárias, do que no bem-estar da população*.

Por outro lado, já depois de lançada, a recandidatura do independente Marco Almeida(MA) teve o apoio da sua família ideológica e ainda de socialistas organizados num pequeno movimento, assim como de personalidades conhecidas pelas suas posições de esquerda, o que não chega para ser um movimento transversal. Alguns erros cometidos, como por exemplo, a escolha, precipitada, de Carmona Rodrigues para coordenador do programa, ou a “troca” de António Capucho por Ribeiro e Castro, contribuíram para criar desconfianças entre nos eleitores de esquerda indecisos. No entanto, a argúcia política que MA tem demonstrado, pode contribuir para clarificar que se trata de eleições autárquicas e não nacionais, e tornar inequívoca a demarcação com o “pafismo”. A abrangência e sensibilidade social do programa, a ser apresentado, e as expostas divisões dentro da esquerda, poderão contribuir para o alargamento da referida transversalidade.

No entanto, com estes dois candidatos, muitos eleitores de esquerda, mesmo tendo em atenção que se trata de eleições locais onde se destaca o perfil político do cabeça de lista, o seu conhecimento e relação efectiva e afectiva com o território, continuam “órfãos”, apesar da recentemente anunciada candidatura da CDU (Pedro Ventura) e do anúncio, para breve, do cabeça de lista do BE (uma surpresa?). Se o PCP aposta no mesmo candidato de 2013, sabendo à partida que a sua eleição como vereador está garantida, já da parte do BE, mesmo que seja anunciado um nome com créditos indiscutíveis em termos nacionais, o há muito diagnosticado frágil enraizamento deste partido no trabalho de base no concelhio, dificilmente contribuirá para alterar substancialmente os resultados. E, substancialmente, seria a eleição de um vereador, assim como o aumento da representação na Assembleia Municipal e nas Freguesias.

A questão que mais agudamente se coloca aos eleitores de esquerda não militantes (ou militantes com autonomia de pensamento e acção), do PS ao BE, é a de tentar perceber porque razão, neste quadro em que o PS oficial se auto-exclui com a indicação de um cabeça de lista da direita dos negócios, não é possível a CDU e o BE construírem, com base nos seus programas que em pouco se diferenciarão, uma alternativa de esquerda credível e exequível. Isto num concelho que, desde que há eleições, sempre foi governado ora pelo PSD, ora pelo PS, sendo que o CDS e a CDU raramente estiveram de fora… Ou será que este último facto é o elemento bloqueador de um acordo à esquerda? E se o é, não se está a tempo, e num tempo político, oportuno para o debater e ultrapassar? Não é importante que a esquerda esteja representada, autonomamente e com força política, na mesa dos vereadores eleitos? Ou será que desta incapacidade da esquerda se unir, vão sair os votos que determinarão a victória de um dos outros dois candidatos, Basílio Horta ou Marco Almeida? Quo vadis esquerda, em Sintra?

 

João de Mello Alvim

 

 

*Ou mesmo sendo militante não se reveja nesta PS/Basílio Horta

** Isto já para não falar no ridículo de, nas raras presidências abertas, excluir os vereadores eleitos pelo Movimento Sintrenses com Marco Almeida, ou seja, a oposição.  Tem sido um exercício de mandato de um Presidente que nada tem a ver com os princípios fundadores do socialismo e, mais grave, não governou para todos os sintrenses – as Uniões de Freguesias cujos Executivos não são do PS/Basílio Horta, estarão em boas condições de confirmar ou desmentir o que escrevo.

Quao vadis esquerda em Sintra (edição em PDF)

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Um pensamento sobre “Quo vadis esquerda, em Sintra?

  1. Há questões fundamentais para a Vida Local que, de cada vez, mais prejudicarão os oportunismos políticos enviesados. É chocante que o PS não considere (ou desconsidera?) os seus militantes com provas dadas na vida de Sintra, respeitados, estimados pela grande maioria dos eleitores. A experiência (terá sido uma cooptação de gratidão?) de colocar em Sintra, o segundo maior concelho do País em termos populacionais um político que votou contra a Constituição que consagrou o Poder Local não pode ser escamoteada, arranjem as justificações que queiram arranjar. Depois temos os Partidos do Arco, em que o conforto de certas benesses terá de gerar “aceitação” das actuais políticas. Dantes falava-se em reformismo e a ideologia nem sempre acompanha os princípios pragmáticos que foram e serão os princípios pragmáticos de partidos de esquerda. No fundo é agradável ser-se “burguês” e de quatro em quatro anos mostrar-se o pendor “de luta ao lado do proletariado”.
    A candidatura de Marco Almeida começa não só a tardar na apresentação das grandes linhas como precisa de mostrar grandes projectos, projectos de que os Sintrenses continuam a não abdicar (não os citarei aqui para que não sejam aproveitados pelos amigos do “status”..
    Obviamente que, quanto a nós, não vemos que a CDU (se conseguir um Vereador) feche a porta a incluir um Executivo liderado por MA, pois se foram possíveis acordos com Fernando Seara e com Basílio Horta, não poderão existir anticorpos suficientes…desde que possam contar com alguma área dentro ou fora da Câmara Municipal, em nome de defesa dos munícipes.

    Nota: Torna-se curioso que nenhuma das forças que se Incluem no Executivo Municipal com Pelouros se incomode com o facto do Site Camarário estar ao serviço da maioria. Este um exemplo de como a democracia representativa tem sido vista pela maioria. Por toda ela.

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