Marco Almeida no (seu) labirinto

Uma derrota por escassos votos como independente, mais três anos de funcionamento do seu Movimento com dinâmica e oposição activa nos diversos órgãos autárquicos, nomeadamente na Câmara e na Assembleia Municipal – coisa que há muito não se via em Sintra; a necessidade de entrar no eleitorado urbano e ainda a pressão, em forma de tenaz, que os partidos que desde sempre governaram a autarquia, têm vindo a fazer sobre a projectada candidatura, empurraram/empurram Marco Almeida para um labirinto.

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Depois da derrota em 2013, poucos foram os que apostavam na continuidade do Movimento Sintrenses com Marco Almeida (MSCMA). Perante a constatação do erro de prognóstico, movimentações do bloco central, PS/PSD, logo começaram tendo como ponta-de-lança um dos fundadores do CDS e actual presidente da Câmara, indicado pelo PS. A ideia era(é) isolar Marco Almeida, agitando o fantasma do “desvirtuamento do sistema democrático” com a erupção do “populismo” dos independentes e, ao mesmo tempo, subir a parada na distribuição de cargos e tráfico de influências, dentro da lógica de “casta partidária” que sempre tem funcionado em Sintra, e pelo país. A outra pinça da tenaz, é apertada pelo PSD, que jogava(joga)nos dois tabuleiros: no da “casta partidária”, a que sempre pertenceu, e na aproximação a Marco Almeida, apelando à sua área ideológica, já que um acordo com o candidato independente pode ser o único caminho para uma não derrota (para a contabilidade do PSD a nível nacional), e para o Poder. A fazer fé nas últimas notícias, a distrital do PSD aprovou “o apoio do partido à candidatura de Marco Almeida” à Câmara de Sintra, não sendo divulgadas as condições, o que pressupõe que a negociação ainda não está fechada, e que a tenaz continua a apertar.

Concorre para o labirinto o próprio Marco Almeida(MC), pois, se em 2013 o nome do seu Movimento foi agregador, em 2017 pode ser condicionar o voto, especialmente junto dos novos eleitores. Por outro lado, a forte implantação no meio rural do Movimento do antigo vice-Presidente, é inversamente proporcional à implantação no meio urbano (e, já agora, no cultural/urbano), sendo que este desequilíbrio poderia ser contrabalançado com o apoio do PSD. Mais: se a condição central para o apoio, for a de que MC seja o candidato indicado pelo PSD, passando assim de independente a dependente não filiado, qual será a reacção dos apoiantes que têm mantido a dinâmica do MSCMA?

Só uma grande argúcia e maturidade política, conseguirão suprir a ausência do fio Ariadne, para indicar a saída do labirinto em que Marco Almeida se encontra, mantendo a condição de independente.

 

 

 

João de Mello Alvim

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Hospital em Sintra, fanfarronices e providência cautelar: é obra!

 

Nenhum dos partidos que governaram nas últimas décadas Sintra, está isento de responsabilidades políticas e fora da suspeição por não terem enfrentarem os negócios da saúde privada,  no que concerne à não existência de um hospital para a população do concelho. Por outro lado, o absurdo da anunciada apresentação de uma providência cautelar com a intenção de impedir a construção de um pólo hospitalar, só tem paralelo com o slogan dos 12 anos em que nada foi feito, e pode virar o feitiço contra o feiticeiro.

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Antes do hospital, e como disse o Ministro, desmentindo o actual Presidente de Câmara* que exigia um hospital em Sintra, e ameaçava o governo com conflito no caso da resposta ser negativa**, importa reforçar os Centros de Saúde tendo em conta a localização geográfica e, acrescento, o apetrechamento humano e técnico dos mesmos, o núcleo de valências, em articulação com os serviços que só um hospital pode prestar. E se, numa primeira fase, for concretizado o pólo hospitalar anunciado pelo Ministro, que o seja, mas que se mantenha a construção do hospital como meta e, muito menos, não se mascare a realidade. Um pólo não é um hospital e este devia de ser, há décadas, um dos objectivos nucleares de qualquer boa governação para Sintra.

Pelos vistos não é este o entendimento do candidato-dependente em comissão de serviço pelo PS que, depois de exigir um hospital em Sintra, depois de ser desmentido pelo Ministro, cria uma nova tipologia de hospitais, os hospitais não tradicionais, contradizendo-se e comprometendo o que diz o PS, ao afirmar que um hospital deste tipo(tradicional) não “tinha lógica” em Sintra**. Mas afinal Basílio Horta e o PS defendem um hospital em Sintra – aquele até ameaça, numa tirada de fanfarronice política, o governo com conflitos-, ou “a obra” fica pelo pólo hospitalar, porque é mais lógico?

Propagandear que a culpa de não haver hospital no concelho foi dos “12 anos sem obra”, é uma forma de branquear as responsabilidades (políticas e outras) do partido dos propagandistas que também estiveram, e estão à frente dos Executivos autárquicos.  Por outro lado, ameaçar com providências cautelares para impedir a construção do pólo hospitalar, é um direito legítimo que se vai voltar contra os autores e apoiantes da mesma, porque os eleitores não iriam perceber o que motivava a acção. Mais: a concretizar-se, será um grande favor à recandidatura de Basílio Horta pois, se a providência vier a ser acolhida, este terá um bom motivo para dizer que o hospital só não avançou, porque a providência cautelar o impediu…

 

 

João de Mello Alvim

 

 

*   “Não é um novo hospital, como o senhor presidente da Câmara de Sintra referiu (…)”um pólo do Hospital Amadora/Sintra [Hospital Fernando da Fonseca], sem internamentos e muito parecido ao modelo do hospital do Seixal”, Adalberto Campos Fernandes, Ministro da Saúde, Diário de Notícias, 6 de Novembro.

 

**  “É tempo de se fazer um hospital em Sintra. Não apenas no Seixal e em Évora, mas aqui!”, sublinhou Basílio Horta. “A nossa população não pode continuar a ser condenada a estar horas e horas na urgência do Amadora-Sintra e a ser deslocada para Cascais sempre que há um problema”, constata o presidente da Câmara, que pretende “centralizar um hospital em Sintra.”, Sintra Notícias, 19 e Outubro (ler notícia completa em: http://sintranoticias.pt/2016/10/19/ultima-hora-basilio-horta-exige-do-governo-construcao-hospital-sintra/

*** “É um hospital, não é um hospital tradicional, nem tinha lógica, porque já há o Amadora-Sintra e o de Cascais vai ser Cascais-Sintra”, Basílio Horta, Observador, 7 de Novembro

O dedo, a lua e os idiotas

Um dos slogans “de esquerda”, mais propagandeado pelos defensores da recandidatura de Basílio Horta à cabeça de uma lista do PS, é que Marco Almeida não recusa(rá) o apoio do PSD, e mesmo do CDS, nas próximas eleições autárquicas. É um típico exemplo da utilização do provérbio chinês, “Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo”. Neste caso, apostam os propagandistas, o tolo é o eleitor.

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Se o PSD de Passos Coelho fosse a linha vermelha de separação entre estas futuras candidaturas, porque razão Basílio Horta(BH) vem desenvolvendo , há meses, contactos  com altas personalidades deste partido? Excluindo o que seria o grande desejo desta figura da direita de construir uma candidatura apoiada no bloco central de interesses PS/PSD/CDS, onde sempre navegou, ao leme ou à boleia – aqui penso que até o actual líder do PS/Sintra, e encarniçado defensor da opção BH, teria dificuldade “em vender o arranjo” internamente -, não será difícil perceber que, em cima da mesa dos repastos, a ementa termine no (que seria o) corte e distribuição de fatias do bolo do Poder e adjacências, e a distribuição dessas fatias (essencialmente) por debaixo da mesa. E como não há almoços grátis, a conta será paga em géneros. Na próxima conjuntura, porque a casta é a mesma, só mudam os lugares, a distribuição é a mesma.

Por outro lado, o actual Executivo não tem governado com o apoio (escolham o nome que quiserem), do PSD, que assim lhe assegura a maioria absoluta? E este apoio não foi intermediado e conseguido graças ao conúbio de BH com as várias correntes da direita e “esquerda” dos negócios, acertado durante a governação de Passos Coelho e com a caução deste? Ou será que se o PSD apoiar, não o declarando, o candidato indicado pelo PS, a nomenclatura do PS/Sintra considera-se indultada para branquear a questão, assim como os verdadeiros socialistas sintrenses, engolem mais um sapo e dizem que era faisão? Mas, se o PSD apoiar o candidato Marco Almeida, é lançado o anátema e a questão passa a ser central e “prova” o envolvimento desta candidatura com o “pafismo”?

A forma politicamente instrumental como os cidadãos são tratados, o esquecimento selectivo que é introduzido na “narrativa pública”, diz muito da concepções políticas e democráticas de quem está à frente das organizações, sabe-se lá à custa de quantos golpes. Escudados na sigla, pensam que esta lhes dá alforria e insistem no discurso arrogante, continuando a apontar a lua, partindo do princípio, idiota, de que eleitores ficarão a olhar para o dedo, porque são tolos.

 

João de Mello Alvim

Independentes e dependentes

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Se um independente é aquele que não tem filiação partidária, Marco Almeida(MC) é um independente, pese todo um processo (para mim pouco claro) que o levou à ruptura e posterior expulsão do PSD (aqui, para mim, mais claro, por entrar em colisão com os estatutos), que se mantêm na sua área ideológica, mas não concorreu, nem irá concorrer, por um partido. Já Basílio Horta (que não sei se ainda tem o cartão do CDS), concorreu e ao que parece concorrerá, indicado pelo PS*, partido que, teoricamente, não ter a ver com a sua área ideológica, mas onde esta figura, da direita radical, encontrou a sua “placa de portas-giratórias”, basta conferir o seu percurso político a partir do final dos anos 90. Basílio Hora(BH) é, assim, um independente-dependente que vem suprir, à consignação e, não custa a crer, escorado em “cláusulas de conforto”, a impotência** do PS local em encontrar, para cabeça de lista às eleições autárquicas, uma personalidade dentro do próprio partido, ou de esquerda, de Sintra, ou não, que aceitasse o desafio pelo gosto do desafio da governação e não para (continuar a) ter direito a um visto-gold no “toma lá, dá cá” do bloco central de interesses, que tem raízes fundas e comunicantes, tanto no PS como no PSD – sem esquecer o CDS que anda, sempre, à boleia.

Por outro lado, MC sublinhou a sua condição de independente quando, depois de derrotado nas urnas, recusou cargos que lhe foram oferecidos, que lhe franqueariam passadeiras para os tráficos de influência e voltou à sua profissão de professor (decisão que não é habitual no percurso dos jotas partidários), mantendo-se, no entanto, como vereador e líder da oposição (que há anos não se via em Sintra). Tenho muitas dúvidas que BH, em caso de derrota, ficasse como vereador, prescindindo de accionar a “cláusula de conforto”, com ligação directa ao “banco de sinecuras” do PS/PSD.

BH, com um percurso feito essencialmente na direita trauliteira – que ele não renega, colocando-se no extremo do pensamento da direita de valores e diálogo, como é o caso do prof. Adriano Moreira, ambos do CDS e, antes, da União Nacional fascista – foi, e vai ser colocado à cabeça de lista do PS, partido que, teoricamente, nada tem a ver com a ideologia do seu candidato; MC, se aparecer à cabeça do seu Movimento e se aceitar o apoio de partidos da sua área ideológica, não vende gato por lebre. É que, por mais sapos que engulam e contorcionismos verbais, e escritos, que tenham de fazer alguns verdadeiros socialistas – que os há no PS/Sintra, com mais ou menos facas espetadas nas costas -, uma coisa é comum aos dois candidatos: nenhum é ou defende o socialismo, sendo que o mais enfático na rejeição, é, suprema ironia, o actual Presidente. Quem não se lembra do célebre debate televiso com Mário Soares, onde naquele tom truculento que caracteriza a sua arrogância política, BH disse que “o socialismo é olhar para o passado”?

 

João de Mello Alvim

 

* “(…) Ao vincar a aplicação do princípio da recandidatura dos actuais presidentes de câmaras ou de juntas de freguesia nas eleições autárquicas do próximo ano, António Costa e a direcção dos socialistas pretendem impedir que se registem em concelhias ou em secções partidárias tentativas de derrube por “golpe de aparelho” aos autarcas que se encontram em funções”, António Costa na reunião da Comissão Nacional do PS, Público, 4 de Novembro 2016

** Ou à imposição da “nomenclatura” que o dirige actualmente que, em caso de vitória, terá direito a prebendas pelos seus bons-ofícios, mas também o terão em caso de derrota, à boleia dos “empenhos” de BH.