Ainda sobre a função do Antigo Casino

IMG_1910Já expressei que não partilho a visão do meu amigo João De Oliveira Cachado, quanto ao Sintra Museu de Arte Moderna – não por preconceitos artísticos, pelo contrário acho que muito palpite sobre a arte contemporânea é dado por iliteracia no que à mesma diz respeito, mas pela falta de dinâmica e consequente afirmação do projecto, que a estimável Maria Sousa Franco não conseguiu imprimir, e ainda pelo contrato, desproporcionado e em seu desfavor, que a Câmara assinou. Também não estava de acordo com a instalação da colecção do mestre Bartolomeu Cid no Antigo Casino, por não estar convencido que a instalação do espólio deste gravador de prestígio internacional, fosse a melhor opção na actual gestão dos espaços municipais, assim como na dinâmica da oferta artística na Estefânia. 

A solução MU.SA, como está, entendo-a como solução transitória. Ou seja, deslocar o acervo de obras plásticas e publicações da CMS para o antigo Casino, parece-me uma decisão acertada e adequada ao vazio que estava instalado, logo que essa deslocação assente numa estratégia mais ampla que vise abrir aquele belo edifício para as artes em geral, nomeadamente as performativas. Há espaço suficiente e salas para a exposição permanente, exposições temporárias, projecção de filmes (porque não Fernando Morais Gomes  ?), mas também para a realização regular de workshops de artes performativas, apresentação de espectáculos (há salas com pé direito suficiente para a instalação de teia, ao contrário do raquítico pé direito do Auditório Acácio Barreiros), oficinas de escrita criativa, residências artísticas e mesmo congressos, fora ou dentro (porque não?) da esfera artística.

Ou seja, o MU.SA não pode mumificar. Mas para isso as actividades extra exposição permanente (e têm acontecido algumas, de forma desgarrada) têm de ter espaços vocacionados para tal, planificação atempada (em articulação com os agentes culturais activos do concelho) e lançada, pelo menos, semestralmente, para criar regularidade da oferta. Mas a divulgação tem de fazer parte de todo este processo. Neste particular, chamo a atenção para um pormenor que não é, pois pode ser interpretado como um programa de actuação: o paquidérmico e periclitante telão, que sinaliza o MU.SA, impede que naquele espaço se divulguem actividades que estejam a decorrer. A divulgação é relegada para o site da CMS ou cartazes, alguns em A4, colocados na porta de acesso, longe do olhar do potencial público. A sinalização do MU.SA deve lá estar na frontaria do antigo casino, mas não impedir que, horizontal ou verticalmente – não ultrapassando a superfície do actual –a existência de um segundo telão onde sejam colocadas as outras actividades a promover. Isto potenciado por uma divulgação que não obrigue o meu amigo António Luís Lopes a um trabalho exaustivo, suponho, de pesquisa na net, para nos mostrar um “clipper” das realizações extra exposição permamente…

A dinamização do eixo cultural Vila/Estefânea (centrando nesta mais a oferta artística regular e variada) é uma velha discussão que arrefece com o passar do tempo, amancebada com o comodismo do deixa-andar. A vitalidade deste eixo, não vai tornar Sintra numa Viena, ou numa Copenhague, entre outras razões, porque não temos a tradição cultural secular destas duas cidades, nem os orçamentos destinados à cultura. Por formação, sou optimista, por estar muito escarmentado, sou um optimista/céptico. Por isso, comungo com o João Rodil , “dar tempo ao tempo para que (o MU.SA) encontre o seu caminho-, e quero acreditar que o MU.SA não nasceu para tapar um buraco, mas insere-se num esboço de estratégia para o transformar o Antigo Casino num espaço multi-funcional, no campo das artes, esboço esse que, para se substanciar em estratégia, irá em breve contar com a opinião dos agentes culturais activos do concelho e de personalidades de inquestionáveis méritos culturais.

Por outro lado, faço votos para que os agentes políticos não tenham medo de perder protagonismo, nem “o aparelho” camarário considere “uma chatice”, ou contumélia, ter de trabalhar articuladamente com estruturas ou criadores exteriores à Câmara. Esta articulação, que não vai beliscar a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, não pode ser encarada como concorrência, mas como convergência no mesmo desígnio de afirmar Sintra não só pela paisagem natural e edificada, mas pela implicação dos sintrenses e visitantes – a tal dinâmica que faltou ao Sintra Museu – na oferta artística variada, regular e alternativa aos “grandes”, mas efémeros “eventos”. Estes, que mordem a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, dão muita visibilidade ao promotor, juntam muitas pessoas, mas não lançam raízes para a formação e fixação de públicos informados e cultos.

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