“O Som e Fúria”, pelo Teatromosca

SOM

Quando vou ver uma obra que nasceu a partir de outra, não me interessa se a última segue a primeira. Exemplo: se vou ver um espectáculo de teatro construído a partir de um livro, separo peça do livro: são objectos distintos, construídos com códigos autónomos e com características diferenciadas. Fujo da mimese, procuro, no que estou a ver, a comunicação que me toca, que me sensibiliza, me faz, ou não, pensar e agir pensadamente.

Na minha opinião, a montagem de um objecto artístico implica a injunção entre concepção e a construção, do que será público. No teatro, por exemplo, pode ser perceptível uma concepção irradiante, mas o que o se vê, a construção, ser disfuncional com a concepção.

Como na literatura, posso ter uma grande história, narrativa ou não, na cabeça mas, se não sei usar os instrumentos da escrita, não posso aspirar a dar a conhecer uma obra homogénea e potente. No teatro, se não tenho actores para corporizarem a minha concepção, devo procurar o equilíbrio entre a ideia inicial e a que aparecerá em palco, porque essa é que interpelante. E, já agora, também me devo questionar, se tenho a maturidade artística/técnica para o domínio dos meios que a minha concepção implica.

Mais do que nunca, e espero que sempre, sinto um fascínio muito grande por quem procura a ruptura, o não comodismo, o risco, logo que numa lógica de percurso em que o tempo é o burilador. Posso, depois de acabar de ler um livro, ver um filme ou um espectáculo, não vir de alma cheia, mas quero vir a pensar fora de qualquer espécie de carris condicionadores, e fazer votos para que os criadores voltem ao trabalho e a novas propostas.

Tudo isto a propósito de ontem ter visto “O Som e Fúria”, pelo Teatromosca (dirigido por Pedro Alves, Mário Trigo e Carlos Arroja), que, para vergonha nossa como sintrenses, continua sem ter uma sala própria para trabalhar e apresentar programação – como provou que tem capacidade, nos poucos meses que esteve no desaproveitado Auditório Municipal António Silva.

 

 

 

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Ainda sobre a função do Antigo Casino

IMG_1910Já expressei que não partilho a visão do meu amigo João De Oliveira Cachado, quanto ao Sintra Museu de Arte Moderna – não por preconceitos artísticos, pelo contrário acho que muito palpite sobre a arte contemporânea é dado por iliteracia no que à mesma diz respeito, mas pela falta de dinâmica e consequente afirmação do projecto, que a estimável Maria Sousa Franco não conseguiu imprimir, e ainda pelo contrato, desproporcionado e em seu desfavor, que a Câmara assinou. Também não estava de acordo com a instalação da colecção do mestre Bartolomeu Cid no Antigo Casino, por não estar convencido que a instalação do espólio deste gravador de prestígio internacional, fosse a melhor opção na actual gestão dos espaços municipais, assim como na dinâmica da oferta artística na Estefânia. 

A solução MU.SA, como está, entendo-a como solução transitória. Ou seja, deslocar o acervo de obras plásticas e publicações da CMS para o antigo Casino, parece-me uma decisão acertada e adequada ao vazio que estava instalado, logo que essa deslocação assente numa estratégia mais ampla que vise abrir aquele belo edifício para as artes em geral, nomeadamente as performativas. Há espaço suficiente e salas para a exposição permanente, exposições temporárias, projecção de filmes (porque não Fernando Morais Gomes  ?), mas também para a realização regular de workshops de artes performativas, apresentação de espectáculos (há salas com pé direito suficiente para a instalação de teia, ao contrário do raquítico pé direito do Auditório Acácio Barreiros), oficinas de escrita criativa, residências artísticas e mesmo congressos, fora ou dentro (porque não?) da esfera artística.

Ou seja, o MU.SA não pode mumificar. Mas para isso as actividades extra exposição permanente (e têm acontecido algumas, de forma desgarrada) têm de ter espaços vocacionados para tal, planificação atempada (em articulação com os agentes culturais activos do concelho) e lançada, pelo menos, semestralmente, para criar regularidade da oferta. Mas a divulgação tem de fazer parte de todo este processo. Neste particular, chamo a atenção para um pormenor que não é, pois pode ser interpretado como um programa de actuação: o paquidérmico e periclitante telão, que sinaliza o MU.SA, impede que naquele espaço se divulguem actividades que estejam a decorrer. A divulgação é relegada para o site da CMS ou cartazes, alguns em A4, colocados na porta de acesso, longe do olhar do potencial público. A sinalização do MU.SA deve lá estar na frontaria do antigo casino, mas não impedir que, horizontal ou verticalmente – não ultrapassando a superfície do actual –a existência de um segundo telão onde sejam colocadas as outras actividades a promover. Isto potenciado por uma divulgação que não obrigue o meu amigo António Luís Lopes a um trabalho exaustivo, suponho, de pesquisa na net, para nos mostrar um “clipper” das realizações extra exposição permamente…

A dinamização do eixo cultural Vila/Estefânea (centrando nesta mais a oferta artística regular e variada) é uma velha discussão que arrefece com o passar do tempo, amancebada com o comodismo do deixa-andar. A vitalidade deste eixo, não vai tornar Sintra numa Viena, ou numa Copenhague, entre outras razões, porque não temos a tradição cultural secular destas duas cidades, nem os orçamentos destinados à cultura. Por formação, sou optimista, por estar muito escarmentado, sou um optimista/céptico. Por isso, comungo com o João Rodil , “dar tempo ao tempo para que (o MU.SA) encontre o seu caminho-, e quero acreditar que o MU.SA não nasceu para tapar um buraco, mas insere-se num esboço de estratégia para o transformar o Antigo Casino num espaço multi-funcional, no campo das artes, esboço esse que, para se substanciar em estratégia, irá em breve contar com a opinião dos agentes culturais activos do concelho e de personalidades de inquestionáveis méritos culturais.

Por outro lado, faço votos para que os agentes políticos não tenham medo de perder protagonismo, nem “o aparelho” camarário considere “uma chatice”, ou contumélia, ter de trabalhar articuladamente com estruturas ou criadores exteriores à Câmara. Esta articulação, que não vai beliscar a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, não pode ser encarada como concorrência, mas como convergência no mesmo desígnio de afirmar Sintra não só pela paisagem natural e edificada, mas pela implicação dos sintrenses e visitantes – a tal dinâmica que faltou ao Sintra Museu – na oferta artística variada, regular e alternativa aos “grandes”, mas efémeros “eventos”. Estes, que mordem a rubrica “Saldo operações orçamentais”, do “Saldo contabilístico da Câmara”, dão muita visibilidade ao promotor, juntam muitas pessoas, mas não lançam raízes para a formação e fixação de públicos informados e cultos.